POP UP 6.0 – Feira de Empregabilidade e Empreendedorismo

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A FCSH/NOVA organiza, a partir de 17 de outubro, uma feira de empresas e empreendedorismo da área das ciências sociais e humanas com múltiplos workshops de apoio à empregabilidade e apresentação de entidades profissionais. Designada por POP UP 6.0 – Feira de Empregabilidade e Empreendedorismo, para fazer o elo de ligação entre a comunidade académica e o mercado de trabalho o evento conta com cerca de 30 empresas participantes, exemplos da Jerónimo Martins, Uniplaces, BNP Paribas, Atrevia, ROI UP Agency, Grupo Impala, entre outros.

Todas as atividades serão gratuitas, incluindo os workshops, a apresentação de entidades e a consulta de bancas em exposição. Os participantes poderão também usufruir de momentos de Network com o objetivo de promover conversas informais para troca de ideias e contactos com entidades empregadoras.

O dia 26 de outubro – International Career Day – será dedicado a todos os que ambicionam trabalhar no estrangeiro. O Centro de Informação Europeia Jacques Delors, o Ministério dos Negócios Estrangeiros, a AIESEC, entre outros vão estar disponíveis para abordar temáticas relevantes sobre as carreiras internacionais.

A POP UP é organizada pelo Núcleo de Integração Profissional e de Antigos Alunos (NIPAA) em parceria com a Associação de Estudantes da FCSH/NOVA (AEFCSH).

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Publicado em FCSH

Miguel Vale de Almeida: “Temos condições para implodir as categorias de género e sexualidade”

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Em entrevista à NOVA Magazine, Miguel Vale de Almeida, licenciado em Antropologia pela FCSH/NOVA, fala sobre Portugal e a sua relação com a comunidade LGBT, temas ancorados num longo percurso de investigação dedicado às questões de género e sexualidade.

Miguel Vale de Almeida licenciou-se em Antropologia pela FCSH/NOVA, passou pela State University of New York, nos EUA, para fazer o mestrado nesta área, e acabou por doutorar-se em Antropologia Social no ISCTE, onde leciona. Ex-deputado socialista, explicou à NOVA Magazine como o seu trabalho se relaciona com o activismo LGBT que sempre professou, embora de forma académica, e como Portugal tem evoluído rumo a uma gradual normalização e aceitação da comunidade LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transgéneros).

Fale-me sobre o seu percurso, em termos académicos, e como chegou ao mundo da política.

Na minha geração, tinha 13 anos no 25 de Abril, e portanto fomos super politizados muito cedo, além de que, nessa época, era pedido que as pessoas amadurecessem cedo. E o liceu era uma coisa muito elitista: não estava massificado nem democratizado e portanto também havia ali uma seleção em termos de classe e capital cultural. Logo a seguir, naquela altura forte de 75, 76, eu já estava na UEC [União de Estudantes Comunistas], que era uma organização estudantil do Partido Comunista. Toda a gente estava numa coisa ou noutra. Depois fui ainda para os Estados Unidos fazer o 12º ano. Quando voltei, larguei isso tudo e nunca mais me liguei à política organizada. Acho que apanhei aquela fase dos anos 80, que foram de crescimento do bem-estar e de cosmopolitismo, um bocado de hedonismo, e afastei-me muito daquela ideia juvenil de participação na política. Foi aí que estudei Antropologia. Fui também fazer o mestrado para os Estados Unidos e aí sim, em 84 e 86, repolitizei-me, mas a partir de outras coisas. Acho que isso é de facto um efeito dos anos 80 e daquele hiato que há entre a revolução em Portugal e a normalização. Descobri as questões de género e de sexualidade, percebi que havia uma gay-straight alliance na universidade, que as coisas estavam já muito organizadas. Em Portugal não existia absolutamente nada, como é evidente. Todas as questões de sexualidade não tinham sido colocadas na revolução e não foram pela política, não havia movimentos sociais LGBT.

Quando voltei para Portugal comecei a trabalhar aqui [ISCTE] em 86, e a investir muito nisso. A tese de doutoramento foi sobre masculinidade e questões de género, o que também era original na época, e portanto eu já estava a trabalhar sobre temas com subtexto político e de movimento social. Ao mesmo tempo, comecei a escrever para o Público, quando começou. Escrevi uma crónica semanal durante muitos anos, experimentando um estilo com muita conversa sobre questões de género e de sexualidade, o que também não era nada comum. Como o meio era muito pequeno, fiquei conhecido como uma pessoa que dava a cara, que se assumia, e que falava política e academicamente sobre género e sexualidade. Portanto, quando finalmente defendi essa tese em 93 ou 94, e foi publicada, isso coincidiu com o boom do Público e com o começo do movimento LGBT em Portugal. A ILGA começou em 95, mas as coisas estavam a estruturar-se depois da crise da SIDA. Aí não fiz muito activismo directo na ILGA, reservei sempre as coisas para as crónicas no jornal e para esse tipo de intervenção pública, como a televisão.

Fui guardando cada vez mais o que tem a ver com género e sexualidade para a intervenção pública, para o opinion-making e para a política quando ela finalmente se começou a renovar depois do hiato de normalização. Nós tivemos a revolução até 76, depois parou tudo. Entrou toda a gente numa de “Europa, hedonismo, consumo, experimentação, artes”. Só no final dos anos 90 é que regressei à política, por assim dizer, e sobretudo na esquerda. Conheciam-me dos jornais, aquele pessoal como o Miguel Portas, que fez a Política XXI, um dos movimentos na origem do Bloco, de pessoas que tinham saído do PC e que queriam renovar as coisas, aderi muito àquilo. Até hoje talvez tenha sido a melhor experiência política que tive. Foi uma coisa que durou pouco tempo, porque muito depressa se fez o Bloco. Na fundação do Bloco, participei logo. Um pouco a fazer o papel de independente, tanto eu como o Miguel Portas, embora o Miguel marcado com o facto de vir do PC. Os outros representavam mais o PSR [Partido Socialista Revolucionário] e a UDP [União Democrática Popular], e o Fernando Rosas representava uma independência académica, por assim dizer. No Bloco, introduzi muito – não só eu, porque havia pessoas de outro segmento do movimento LGBT – as questões LGBT como questões políticas. Depois saí. Comecei a achar que se estava a cristalizar muito e a ter muita influência de alguns sectores e larguei a política, nesse sentido activo. Entretanto também estava mais na vida académica e tinha largado a comunicação social, que mudou imenso. Do dia para a noite deixei de escrever para o Público porque eles não quiseram mais.

Mas o movimento LGBT estava a ganhar força. É a partir de 2003 que a coisa fica intensa, muito mais visível e com uma estratégia política muito mais bem organizada. Exigia-se aos partidos um posicionamento, pedia-se um balanço das leis concretas. Começaram as redes sociais de todo o tipo, como os blogues. Concentrei-me bastante nesse tipo de activismo. Quando a aposta do casamento se tornou na grande questão, a partir de 2005, e quando a ILGA definiu isso como a estratégia central, já eu estava a sair do Bloco.

Quando chegaram as eleições de 2009, no último Sócrates, já eu e várias outras pessoas tínhamos estado a participar no movimento pelo casamento. Era toda uma organização civil, de várias associações e pessoas. Já tinha havido debates de televisão, como o famoso Prós e Contras. Eu era muito visível como uma pessoa que dava a cara para falar num tom simultaneamente político e académico e não a partir do movimento. Isso foi uma estratégia que tivemos na ILGA – eu nunca seria da direção nem um ativista, ficava numa espécie de “reserva” para poder fazer o efeito de ponte “cá fora”. Foi em função disso que o Sócrates me convidou para entrar nas listas quando decidiu que o casamento avançaria. Entraria nas listas do PS como símbolo disso. Eu negociei, disse que só se fosse como independente, por não concordar com eles em várias coisas.

Como é que foi “combater” o lado direito do hemiciclo? Sentia que o debate batia sempre no mesmo sítio, que essa metade estava ou está desligada das necessidades daquela que é uma grande comunidade?

O debate foi mudando e isso é algo interessante de ver. Ao longo dos anos, quando o casamento começa a ser uma reivindicação, os partidos são confrontados com isso. O Bloco mete isso no programa. O PS demora até 2009 a fazê-lo. Muda o apoio crescente de cada vez mais partidos à ideia, muda a opinião pública, que é sempre crescente a favor, e mudam os termos do debate. A direita e os sectores conservadores dentro do PS, e não só, mudaram desde a oposição completa à ideia, com argumentos muito homofóbicos e heteronormativos, até se concentrarem apenas no nome da instituição. Já só se concentram na ideia “sim, casamento tudo bem, mas dêem-lhe outro nome”. Tornou-se em algo já no plano simbólico. Aí houve de facto uma mudança que correspondeu ao trabalho de um movimento social de esclarecimento e de exigência.

Naqueles dois anos no Parlamento, não houve grande batalha, porque entrei em Setembro e em Janeiro foi aprovado. Porque havia maioria para isso. A coisa já estava “empacotada” à partida. A questão era como mudar as mentalidades, as percepções, a opinião pública. E fazer com que muitas pessoas de segmentos mais conservadores mudassem de opinião.

Que é ainda um desafio…

É. E isso passou muito mais por escrever nos jornais, debates na televisão, o activismo da ILGA e outros movimentos, o movimento pelo casamento que houve… Foi muito através do debate em praça pública, na sociedade civil, que essa mudança se fez. Embora com muitas conversas com pessoas concretas, a explicar as coisas, as pressões…

Referiu à ILGA, em 2013, o impedimento de se aprovar a igualdade nas candidaturas para adopção por parte de casais homossexuais devido a razões de “sociologia política”. O que quis dizer com isso?

Em 2009, o casamento foi aprovado em virtude de uma proposta de lei, que é o nome que se dá quando a proposta vem do próprio Governo. Isto é, não foi um grupo parlamentar nem grupos de deputados que propuseram a lei do casamento igualitário. Eu e o movimento tínhamos algo claríssimo: que a lei do casamento era para a igualdade absoluta, sem a excepção de proibir a adopção, que já vinha da Lei das Uniões de Facto de 2001. Já existia essa excepção; quando chegou essa lei, equiparava as pessoas não casadas, mas a viverem juntas, ao casamento, inclusive para funções de adopção. Excepto os casais homossexuais. Esse problema foi repetido na proposta que chegou, de cima para baixo, vinda do Governo. Não estava à espera.

Sócrates e outras pessoas eram a favor de incluir a adopção, da igualdade total. Mas havia sectores dentro do PS que não eram e que impuseram essa ressalva. É isso que chamo de sociologia política, ou seja, o PS é, e era muito mais na altura, bem como o PSD, um partido de abrangência total. Cobre um eleitorado, com apoios autárquicos, de lobby, de financiamento e ideológicos, de pessoas que vão desde a “esquerda, esquerda, esquerda” até um catolicismo ligeiramente progressista e pouco mais que isso. Há de tudo. E essa sociologia tem pesos muito diferentes. Quando se chega a questões como esta, veio ao de cima um peso muito grande de um sector mais homofóbico, mais aflito, mais conservador e sobretudo mais ligado à Igreja e à necessidade de ter o apoio do eleitorado das zonas do interior. Ganhou esse segmento. Como eu, felizmente, era independente, não fiquei mal do ponto de vista da consciência. Tinha direito a votar como entendesse e portanto votei a favor do projecto do Bloco, que incluía a adopção. Havia a proposta do Governo, que não incluía a adopção, e na qual votei obviamente a favor, por estar a propô-la, mas votei a favor do Bloco e dos Verdes também, que a incluíam. A maioria esmagadora dos outros deputados do PS votaram contra esses, para obedecer mais à linha do partido.

E agora que a maioria parlamentar aprovou finalmente a adopção por parte de casais do mesmo sexo, qual será próximo passo na luta da comunidade LGBT?

Do ponto de vista legislativo o principal é o da PMA [Procriação Medicamente Assistida]. Tem sido muito desprezado na opinião pública, na atenção dos partidos e até no movimento. Por razões óbvias, diz respeito sobretudo às mulheres, porque a lei discrimina, permite o acesso às várias técnicas de Procriação Medicamente Assistida a mulheres casadas com homens. Não o permite a mulheres solteiras nem a casais de mulheres. Está tudo encaminhado para ser aprovado, já o foi na votação indiciária. Acho que é no fim do mês a votação plenária final. Essa será a última grande questão estruturante, do ponto de vista legal.[A lei foi aprovada após esta entrevista.]

Há coisas que precisam de ser mudadas e que já estão na calha para o ser. A lei da identidade de género, que também fui eu que fiz juntamente com o José Soeiro, do Bloco, foi muito progressista para altura. Foi considerada muito inovadora a nível mundial. Mas obviamente ela tem o problema de precisar de um diagnóstico de disforia de género, ou de perturbação de identidade de género, como se chamava na altura. Agora a alteração é para que isso saia. É a despatologização. Há consenso no Governo do PS e no Bloco. Vamos ver como é que o PC se comporta em relação a isso. É esse o problema. Se o PC não quiser não há maioria, nesse retirar o lado da saúde.

Quais seriam os motivos por trás da resistência do PC?

Um certo conservadorismo na forma como encaram as questões de género. Um receio que têm sempre. Demoram um bocado mais tempo a mudar de opinião em todos estes aspectos. Quando mudam, fica fixo. Mas acho que têm uma representação bastante essencialista do género, na cultura comunista mainstream. Há os homens e as mulheres. A partir dessa premissa então, sim, deve haver igualdade entre ambos. Depois passaram a dizer “os homens são autónomos, as mulheres são autónomas, portanto pode haver homossexualidade”. Mas a ideia da desconexão entre corpo e identidade, e as suas transformações, já é mais perturbadora. Acho que há uma resistência ao seu próprio eleitorado.

Legislativamente, vai ficar tudo feito este ano. Provavelmente, nas listagens do rainbow map da ILGA Europe, que fazem o ranking dos países pelo maior grau de “boas leis”, podemos passar para o primeiro lugar. Vai ser uma coisa extraordinária. [Portugal subiu para o 5º lugar neste ranking]
O problema é o que sempre soubemos que havia. Uma coisa são as garantias legais que permitem que o Estado dê o exemplo perante as pessoas, que diga o que é correcto e incorrecto, que proteja os direitos. Isso tem um efeito pedagógico enorme. Mas o trabalho de mudança de mentalidades, de aplicação das leis, de vigilância, combate à discriminação, passa por coisas que não são legislativas. São de activismo e de acção proactiva do Estado. Mudanças na cultura da justiça, da saúde, das polícias, do exército… Que se fazem com muita formação, com vigilância, denúncia, educação para transformar mentalidades. É um processo longo. É um tempo longo, não o curto da legislação.

Em março de 2010, escreveu a crónica Libertação, igualdade, queer, onde disse que o movimento LGBT caminhou de um “paradigma de libertação para um paradigma de igualdade”, onde já se busca uma indiferença no modo cultural. Sente que esta indiferença já se atingiu em Portugal, ou ainda existe mais preconceito que descontracção?

Deixa-me especificar o que queria dizer com isso. O paradigma da libertação foram aqueles anos 60 e 70. Passava por uma espécie de afirmação pública da diferença enquanto algo válido por si mesmo. Isto é, “eu sou assim, esta é a maneira de ser, construímos esta cultura, não há problema nenhum”. É um modelo muito americano, baseado na ideia de que, de certa maneira, há uma etnicidade gay e lésbica, um modo de vida próprio, que pode estar junto com os outros, mas separado. Um separate but equal a partir de ideias de libertação individual. Mas a nossa tradição aqui é muito mais no sentido da igualdade dos direitos, de caminhar para a ideia de indiferença. Mas “indiferença” pode ser mal interpretado. Significa que, eventualmente, não faça sentido sequer classificar as pessoas ou seja preciso protegê-las em função da sua orientação sexual. Não significa normativização, nem que as pessoas, em virtude de serem gays ou lésbicas, sejam invisíveis, ou se comportem de uma certa maneira e não de outra. Isso é um debate que surgiu mais tarde, que há hoje em dia entre os segmentos mais chamados queer emainstream do movimento, e que têm acusações mútuas que são provavelmente erradas. É esse já o debate actual. Há quem ache que existe uma normativização do que é ser gay e lésbica que passa por certos critérios de classe, de raça, etnicidade, e que não deve ser assim. Que deve haver uma pluralidade de manifestações de género e de sexualidade. E há o segmento mais mainstream, que diz que essas atitudes queer não ajudam muito à promoção dos direitos. Que têm uma certa inclinação neoliberal que acaba por pulverizar as identidades. Que não permitem a mobilização estratégica para a conquista dos direitos. Os dois estão certos e errados. Depende de como se usa cada uma dessas coisas. Acho que temos condições para implodir as categorias de género e sexualidade e ter uma pluralidade muito grande que conduza à indiferença só depois de termos direitos iguais, formais. Mas como isso agora está praticamente garantido, acho que o debate vai ganhar uma nova dimensão. Vai poder passar a ser cultural, de estilos de vida, de atitudes perante a vida.

Há pouco falou sobre o trabalho em questões de identidade de género. Esse trabalho, académico e jornalístico, deu-lhe uma perspectiva diferente sobre aquilo que é a realidade prática da vida destes portugueses, ou mesmo dos portugueses no geral?

O que sinto é uma coisa parecida com muitas outras áreas em Portugal. Temos fossos e apartheids muito grandes, baseados em grandes diferenças de classe e capital cultural. Temos o país muito dividido. Nesse sentido, é um país que funciona a duas velocidades. Ao nível de quem comanda a sociedade, ou seja, de quem ocupa o poder, está na Academia, tem cargos de representação e emite opinião supostamente autorizada, as coisas vão a uma grande velocidade cosmopolita e até mesmo libertária e igualitária. Ao nível de quem está desempoderado e vive em estruturas mais tradicionais, que depende muito mais do controle familiar e social, as coisas funcionam muito mais devagar. Isso resulta em algo a que alguns chamam de “crispação”, mas que não acho mau. É uma espécie de clareza nos termos das oposições. Temos uma clareza de distinção entre quem defende determinadas formas de igualdade e emancipação e entre quem é contra elas. Isso torna-se bastante claro não tanto a nível político, mas a nível social.

Como é que as pessoas efectivamente se transformaram? Bom, transformou-se muita coisa. Era inimaginável o grau de preconceito e reacção que podia haver há 20 ou 30 anos comparado com agora. E vê-se uma transformação muito grande nas pessoas, que passa por algo muito simples: poder falar nas coisas. A partir do momento em que se fala, as coisas existem. O simples facto de as pessoas, já no seu discurso, meterem a possibilidade de existirem heteros, bis, gays e lésbicas, pessoas transgénero e transsexuais, de conceberem que isso existe e verem a paisagem humana como composta desses diferentes elementos, já é uma enorme transformação cultural. Porque normalmente os processos de silêncio e de invisibilidade são mais fortes, e fazem com que as pessoas não imaginem o mundo assim. Que o imaginem como como feito apenas de pessoas hetero e cisgénero. E o resto, quanto muito, como umas bizarrias que de vez em quando ouvem falar. O que a sociedade portuguesa não tem são ideais muito liberais e individualistas, que passem pela ideia da transparência. E portanto não temos muita gente fora do armário, sobretudo em lugares de influência. Mediática, pública, política… E isso, para nós, é um problema. Porque, embora se esteja a mudar, faz com que muitos jovens não sintam que haja modelos a seguir, ou não sintam que seja possível fazê-lo.

Apesar de tudo, talvez estejamos a ganhar modelos. Porque há cada vez mais livros, séries a vir de fora, casais homossexuais a serem representados na televisão nacional…

Claro. Vivemos numa sociedade muito aberta, muito exposta globalmente. Depois, felizmente – e isso tem a ver mais com questões da nossa experiência histórica dos últimos 40 anos, com a forma como a revolução foi feita e como tudo se reconstruiu – tivemos muita sorte em não haver espaço cultural em Portugal para reacionarismos extremos. Eles vão-se obviamente manifestando nas vidas familiares, nas relações interpessoais, mas não se manifestam institucionalmente. E isso é muito bom. Ou seja, não temos movimentações organizadas através de uma motivação homofóbica ou racista. Como acontece noutros sítios, cada vez mais, em que a política se está a transformar nisso mesmo. Aqui e em Espanha não há espaço para isso. É uma sorte que temos e que devíamos aproveitar.

São os “brandos costumes”, apesar de tudo?

É mais do que isso. Houve uma revolução cultural que faz com que as pessoas não achem isso admissível. As experiências da ditadura foram muito fortes. E a normalização da democracia que se fez a seguir foi muito fundo nas pessoas. É uma coisa mais ou menos sagrada. E portanto ninguém se organiza politicamente dessa maneira.

Texto originalmente publicado na Nova Magazine

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Festa da Arqueologia 2016

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João Costa: os jovens de hoje são “a geração mais qualificada de sempre”

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Em entrevista à NOVA Magazine, João Costa – ex-diretor da FCSH/NOVA e atual secretário de Estado da Educação – refere-se à educação portuguesa como uma “educação de sucesso”, apesar de ainda apresentar dados preocupantes.

Licenciado e Doutorado em Linguística, João Costa assumiu o cargo de secretário de Estado da Educação em novembro de 2015, depois de ter estado dois anos na direção da FCSH/NOVA. Defende que o principal foco na promoção de sucesso escolar e melhoria das aprendizagens deve ser a sala de aula, apoiando a generalização da autonomia na gestão do currículo, no qual todas as disciplinas devem ser estruturantes.

Quando surgiu o interesse pelas Humanidades e pela Linguística?

Surgiu cedo, não pela Linguística em particular, mas pelas Humanidades… Desde que me lembro de ser gente. A Linguística foi uma escolha não muito consciente: eu gostava de gramática, de línguas clássicas e quando estava a acabar o 12.º ano apareceu este curso novo – uma licenciatura em Linguística, que eu não sabia o que era. Fui à Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa ver o currículo do curso e achei interessante. Estava muito na dúvida sobre que curso seguir, era esse ou ser professor de primeiro ciclo, e a minha escolha foi com uma moeda ao ar – atirei a moeda e saiu a Linguística. Foi muito consciente [risos].

Como foi o seu percurso até chegar à direção da FCSH/NOVA?

Quando acabei o curso estive na Holanda como estudante de Erasmus – fui um dos primeiros estudantes Erasmus do país, e fiquei lá a fazer o Doutoramento na Universidade de Leiden. Pelo meio, estive nos Estados Unidos durante um ano no MIT e, após acabar o doutoramento na Holanda, vim para a Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa dar aulas durante sensivelmente um ano e meio. Entretanto, surgiu a oportunidade de ir para a NOVA, como professor auxiliar, e por lá fiquei. Trabalhei no departamento [de Linguística], depois integrei a direção com o professor João Sàágua – primeiro como subdiretor adjunto, em seguida como subdiretor e finalmente assumi a direção da faculdade [em 2013].

Quais considera terem sido os maiores desafios e os maiores feitos enquanto diretor desta faculdade?

Eu fui diretor num período em que ocorreram enormes cortes financeiros, restrições financeiras imensas. Tive de tomar opções muito difíceis que nunca gostaria de ter tomado (redução de contratos, redução de horas, etc.)… Foi um período muito difícil. Considero um feito ter conseguido que a faculdade se mantivesse unida, coesa e colaborante – não deixei nenhum inimigo na faculdade apesar de a ter estado a dirigir no pior período possível. Portanto, tendo em conta o período em que estive à frente, em que tivemos cortes de cerca de um terço do orçamento, este espírito de equipa que eu acho que consegui manter vivo na faculdade foi uma vitória.

O que acha da passagem da Universidade Nova de Lisboa a Fundação?

Tenho acompanhado a discussão e, não sendo um fundamentalista nem de uma posição nem de outra, acho que a passagem a Fundação pode trazer ganhos na flexibilidade na gestão. Sempre que se ganha em autonomia ganha-se em responsabilidade. O momento que se seguirá de discussão de estatutos da fundação tem de ser, sobretudo, muito acompanhado e muito acautelado para que seja uma passagem de facto produtiva.

Quando lhe foi proposto este novo cargo, pensou duas vezes antes de o aceitar? O que o guiou nessa decisão?

Pensei três, quatro, cinco vezes… [risos] Não foram só duas, não tive muito tempo para ponderar, mas ponderei bastante. Guiou-me o entusiasmo por entrar numa solução do Governo em que me revia, com uma equipa que merecia a minha confiança, mas também o espírito de serviço público numa causa que me apaixona bastante que é a educação.

Qual é a sua opinião sobre o estado da educação em Portugal?

É uma opinião boa, nós temos 42 anos de escola pública democrática e hoje muitos dizem que olham para os jovens como a geração mais qualificada de sempre. Sendo 80% dessa população mais qualificada de sempre fruto da escola pública, podemos dizer que temos uma educação de sucesso. Contudo, há dados que ainda nos preocupam, por termos taxas de insucesso altíssimas e ainda taxas de abandono escolar precoce de que não nos devemos orgulhar. Existe o desafio de garantir que, caso se fique mais tempo na escola – sendo que a escolaridade obrigatória foi alargada –, as aprendizagens correspondentes sejam melhores. Temos, portanto, uma história que é motivo de orgulho, mas dados que nos devem preocupar imenso e que só devem indicar que temos de continuar a trabalhar mais esta linha.

Que objetivos primordiais visa para a educação em Portugal nesta legislatura enquanto Secretário de Estado?

Temos de ter como foco principal a promoção de sucesso escolar e a melhoria das aprendizagens – este é o foco do programa do Governo. Isto significa devolver confiança às escolas, devolver-lhes algumas condições de trabalho – estamos num período em que a escola pública foi muito maltratada, e é preciso agora repor um contínuo de normalidade que foi interrompida abruptamente. Significa dirigir um olhar aos anos iniciais de ciclo e à qualidade do trabalho que se faz na escola, que implica tomar opções de medidas de apoio à promoção de sucesso. Que currículo é que temos na escola que garanta melhor sucesso? Devemos responder a outra pergunta essencial: estamos a formar para quê? Qual é o perfil de saída dos alunos no final da escolaridade obrigatória?

Todas as medidas de promoção de sucesso que não tenham impacto no que acontece na sala são inúteis. Podemos ter os programas mais bonitos do mundo, mas se não forem devidamente apropriados pela escola não servem. É por isso que dizemos tantas vezes que confiamos nos professores, porque na sala de aula está o professor com a sua turma e é ele que vai ter que apropriar e muitas vezes criar as medidas de sucesso.

O que é que a passada experiência na FCSH/NOVA lhe conferiu para este novo cargo?

A FCSH é uma casa grande, e às vezes complicada, onde aprendi imenso. Eu venho para aqui com experiência de gestão, os diferentes cargos de gestão que ocupei na faculdade ajudam-me no desempenho destas funções. Tenho também experiência profissional na área da educação e da formação de professores, que foi muito desenvolvida na FCSH e que também me dá um conhecimento do sistema educativo que me põe bastante à vontade aqui.

Como se pensa dar maior valorização às artes e às humanidades?

Há várias coisas que têm de ser feitas, a reflexão que estamos a fazer sobre o currículo é uma delas. Passa exatamente por dizer que sabemos que as artes e as humanidades são áreas estruturantes na formação de um indivíduo. Então que papel terão estas áreas na reflexão que estamos a lançar sobre o perfil de saída dos alunos e sobre o currículo que deve ser gerido de uma forma flexível? É uma discussão que é feita com calma, com tempo e com muita participação dos professores, de associações profissionais, de sociedades científicas, que vão ter que nos dar um contributo para isto. Mas há um ponto de partida que consiste no facto de não considerarmos que uma disciplina como a História, por exemplo, não seja estruturante; ou que a Filosofia não seja estruturante. Enquanto os documentos produzidos nos últimos quatro anos referem apenas o Português e a Matemática como disciplinas estruturantes. Ao dizermos que todas as disciplinas que lá estão são estruturantes, caso contrário não estariam lá a fazer nada, já estamos a dar um sinal muito claro de valorização destas áreas. Agora, o trabalho que se vai fazer em torno do currículo será a concretização deste discurso.

Porque não instituir estágios curriculares em todos os cursos, no sentido de preparar os alunos para o mundo do trabalho?

Quando se fala em “mundo do trabalho” temos de pensar nos cursos que têm como vocação específica uma dimensão profissionalizante, que são os cursos profissionais e já têm formação em contexto de trabalho. Portanto, não precisamos de inventar a roda porque ela já está inventada. Aquilo que precisamos de saber, e é um trabalho que estamos a promover com a Secretaria de Estado de Emprego, é se esses cursos dão uma resposta adequada às necessidades setoriais e regionais do mercado de trabalho. Mas já têm formação em contexto profissional.

Que razões guiaram o governo nas recentes alterações relativamente aos exames do ensino básico?

Partem de alguns princípios: em primeiro lugar, percebemos que Portugal estava isolado no contexto dos países com que nos gostamos de comparar na existência destes exames tão cedo, em particular os exames de quarto ano; por outro lado, percebemos que a existência destes exames estava a promover alguns efeitos de distorção sobre as práticas, e havia muitos relatos sobre isto de novo relativamente ao quarto ano – o Português e a Matemática eram trabalhados nos primeiros anos de escolaridade enquanto outras áreas, em particular o Estudo do Meio, estavam a ser deixadas de fora.

Os próprios instrumentos de avaliação interna estavam a ser distorcidos para serem apenas réplicas dos exames, e não tanto trabalhos de grupo, trabalhos de pesquisa, trabalhos criativos, entre outros que promovem o desenvolvimento de competências de uma forma mais ampla. Era, por isso, preciso intervir. Entretanto já tinha caído o exame do quarto ano na Assembleia da República, havia iniciativas parlamentares para que os outros exames também desaparecessem, e o Ministério chamou a si a decisão promovendo estas alterações no mesmo calendário.

Que principais implicações teria a divisão do ensino em dois ciclos de 6 anos?

Não se pode responder a essa pergunta sem ter projetos concretos em cima da mesa. Seja dois vezes seis, quatro vezes três, ou qualquer outra combinatória possível, só se pode avaliar isso perguntando o que se quer em cada um desses ciclos, que disciplinas é que se tem, se é monodocência ou não… No fundo, analisando o que se ganha com isso. Que é importante avaliar e estudar possibilidades – é. Contudo, sem a análise dos seus benefícios estas possibilidades não nos levam a nada.

O que pensa da contínua mudança de programas escolares?

A ideia de que os programas estão sempre a mudar é um mito. A maior parte das disciplinas tem programas que não mudam há 25 anos. Tem havido alterações, o currículo está uma manta de retalhos, mas as alterações são muito mais localizadas do que generalizadas. O programa de Estudo do Meio do primeiro ciclo não muda desde 1991.

Quais são os planos do governo relativamente à Parque Escolar?

Continuar o que tem vindo a ser feito e fazer a gestão. Como sabe, a Parque Escolar foi muito parada nos últimos tempos, sendo neste momento necessário reprogramar e ir periodizando as horas que podem ser feitas no calendário previsto.

Com tudo o que a psicologia já descobriu sobre a aprendizagem e o ensino, após anos e anos de investigação, porque é que os psicólogos não são incluídos na criação das metas curriculares, do programa e dos livros escolares?

Todos os programas e metas que têm vindo a ser desenvolvidos são sempre sujeitos a consulta pública. Isso significa que qualquer setor da sociedade pode participar na sua discussão. Portanto, calculo que muito provavelmente os psicólogos e outras classes profissionais tenham participado na discussão de algumas das orientações que estão em vigor. As escolas têm atualmente serviços de Psicologia e orientação em que os psicólogos participam de uma forma muito ativa na escolha dos caminhos dos alunos. Portanto, há participação dos psicólogos no processo educativo – porém não a um nível que nós gostaríamos, é preciso investir ainda mais aí.

Na definição de orientações curriculares têm-se, tendencialmente, ouvido os professores e os académicos da área, como é tradição em Portugal. Mas também, à exceção dos últimos quatro anos, as Ciências da Educação são muito ouvidas e participam muito na construção dos projetos. E sendo Ciências da Educação uma área que comunica imenso com a Psicologia e com as teorias de aprendizagem, as teorias de desenvolvimento curricular, etc., não podemos dizer que essas áreas têm ficado de fora – muito antes pelo contrário, são interlocutores privilegiados dos diferentes governos. De facto, o governo anterior tinha um preconceito contra as Ciências da Educação, que foram banidas da discussão, mas temos tido várias reuniões e contacto com pessoas dessas áreas nas diferentes decisões que temos vindo a tomar.

Considera que o poder que se planeia atribuir às escolas de definirem 25% do currículo irá, de facto, ao encontro dos melhores interesses dos alunos?

Sim, sem dúvida. Nós sabemos que os países que deram a volta em termos de sucesso escolar são países que investiram em quadros de autonomia de gestão do currículo. Aliás, isso já existe em Portugal nas escolas privadas e nas escolas com contrato de autonomia. Trabalharemos em generalizar essa possibilidade, esse promotor de sucesso, a todas as escolas. É um trabalho que terá de ser acompanhado, requer formação, requer capacitação das escolas para o fazer, mas sem dúvida que será melhor. Repare: se estivermos numa escola em que todos temos imensas dificuldades em Matemática e não em Português, provavelmente precisamos que haja algum tempo do currículo que seja dedicado a apoiar-nos mais em Matemática do que em Português. Caso contrário, estamos a aplicar a mesma chapa independentemente das necessidades específicas de cada contexto.

O que pode dizer relativamente às mudanças no ensino privado financiado pelo Estado?

O que está a ser feito é uma gestão de rede. Se tiver um filho e for inscrevê-lo na escola, há vários fatores que influenciam a possibilidade de inscrição, sendo um deles a área de residência. Se não houver crianças naquela área, como tem acontecido infelizmente em muitas zonas do país, não abrem as turmas. A única coisa que se está a fazer é aplicar essa regra não apenas às escolas públicas, mas também às escolas que são financiadas com dinheiro público. Se há uma escola que pretende abrir uma turma vai-se ver se há crianças da área de residência.

Tendo em conta a completude do seu currículo, que conselhos daria relativamente à gestão do tempo?

Eu sou uma pessoa má para isso, porque sou daquelas que só dormem quatro horas e isso não é saudável apesar de dar mais tempo [risos]. Eu faço listas de coisas que tenho para fazer. Organizo-me muito em função de metas que estabeleço, que tenho de cumprir nas minhas listas. E rentabilizo o tempo: se estou numa viagem de comboio vou a trabalhar, vou a ler qualquer coisa… Portanto é uma questão de rentabilização do tempo e, sobretudo, nãostressar – não stresso com nada, é muito difícil ver-me nervoso seja com o que for, porque levo a vida com boa disposição e isso ajuda a gerir o tempo.

Texto originalmente publicado na Nova Magazine

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#Livros: uma carta de amor à Síndrome de Down

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“O Meu Irmão”, livro que retrata a relação de dois irmãos, um deles com Síndrome de Down, é o primeiro romance de Afonso Reis Cabral, alumnus de Estudos Portugueses e Lusófonos da FCSH/NOVA.

Estamos habituados a tratar a deficiência com o mesmo cuidado com que caminhamos num pavimento com pedaços de vidro. Examinando bem por onde vamos antes de avançarmos, com o peso do medo nos nossos ombros. Afonso Reis Cabral poderia ter sucumbido ao medo de ofender quando se preparou para contar a história de dois irmãos, um professor universitário divorciado – o narrador – e Miguel, de 40 anos, com Síndrome de Down, que ficou ao cargo do primeiro após a morte dos pais. No entanto, a escrita madura e sólida, que humaniza o tema sem se comprometer com o politicamente correto, arrecadou o Prémio Leya 2014 por unanimidade do júri.

A ação começa no Tojal, o refúgio de infância dos protagonistas, onde passam uns dias para recuperar do rebuliço da cidade. No fundo, o meio rural é a quietude que precisam para resgatar a sua relação. Percebem, rapidamente, que esta vai ser perturbada pela tacanhez do casal de camponeses Olinda e Aníbal e do filho, Quim. Esta família, a única que habita a aldeia, é o ponto de partida para um retrato vivo e impiedoso do interior de Portugal, que reflete a solidão e isolamento próprios do abandono rural.

O narrador salta a linha do tempo, percorrendo-a desde a infância à vida adulta dos irmãos. A ordem inversa dos acontecimentos poderia confundir a leitura, mas a verdade é que permite entender melhor o presente. Acompanhamos Miguel desde criança e assistimos às batalhas que tem que travar até nas ações que parecem mais triviais, como aprender a desenhar. As suas dificuldades são quase palpáveis, mas não nos levam a sentir pena; em lugar disso, abrimos os olhos para a diferença de ritmo que a doença exige e solidarizamo-nos com a frustração pontual do narrador.

O verdadeiro adensar do enredo deve-se a Luciana, a deficiente por quem Miguel se apaixona. Este é um amor inocente, que prova que as emoções são, acima de tudo, transversais. O narrador encara Luciana como uma inimiga do bem-estar entre os irmãos, desenvolvendo uma obsessão pouco saudável em boicotar a relação que roça a crueldade.

Este é um livro que se eleva pelas emoções reais que transmite, tratando a doença sem sentimentalismos fáceis. O narrador não se poupa a sentir a angústia e a fúria que advêm da sua relação com Miguel e da crescente noção de que, sendo irmãos, nunca poderão ter a naturalidade que esse laço implica. A linguagem é nua e crua, pois as coisas são chamadas pelos nomes, quer seja na descrição comportamental de Miguel quer nas afirmações acutilantes do narrador em acessos de raiva.

Se é verdade que o narrador é brusco em determinados momentos, consegue redimir-se no esforço que faz para proteger Miguel dos males do mundo e de todos os que parecem alérgicos à diferença. Os momentos mais parados passam para segundo plano, não só pela reviravolta final quase próprio do género thriller, mas, sobretudo, pela vulnerabilidade da reflexão poética que intercala a prosa principal. Em última instância, esta é uma leitura que deixa a sensibilidade de parte, mas que espelha o amor acrescido à condição tratada.

Texto originalmente publicado na Nova Magazine

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Título: O Meu Irmão

Autor: Afonso Reis Cabral

Editora: Leya

Edição: 11/2014

ISBN: 9789896603441

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A democracia em tempos de crise – o caso polaco

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Se os restantes países europeus seguirem o exemplo polaco, a democracia pode estar ameaçada. A afirmação pertence a Marcin Polakowski, convidado da aula aberta sobre democracia e direitos humanos em tempo de crise, promovida a 10 de maio, no âmbito da unidade curricular de Teoria Política da FCSH/NOVA.

“Estamos atualmente num momento de tensões sociais”, afirmou Marcin Polakowski, docente da Universidade Nicolaus Copernicus, em Toru?, Polónia, acerca da atual situação social nesse país, onde a democracia pode estar em perigo. O docente fez um balanço dos acontecimentos políticos dos últimos anos, descrevendo-os como o “reflexo da realidade social”.

“Houve o crescimento do capitalismo, provocando o aumento do fosso entre os mais ricos e os mais pobres. Ao mesmo tempo, havia medo das ideologias comunistas e a recusa de governos ditatoriais”, referiu Polakowski, fazendo uma retrospetiva da situação política da Polónia depois da II Guerra Mundial.  Com a implementação de uma democracia forte e de um sistema de mercado misto, onde a regulação económica é feita por privados e também pelo Estado, a Polónia cresceu e solidificou a sua situação política, económica e social, mas atualmente esses indicadores encontram-se em queda.

Em 2004, o país entrou para a União Europeia (UE), o que possibilitou a maior abertura do seu mercado e o desenvolvimento da indústria. Mas tal como todos os países da comunidade, a partir de 2007, a Polónia foi “arrastada” pela crise económica e financeira da Europa, começando aí o declínio social.

O ano de 2015 marcou a mudança na ideologia política vigente. O partido da extrema-direita Lei e Justiça ganhou as eleições legislativas (com 37,58% dos votos) e o seu candidato presidencial, Andrzej Duda, saiu vitorioso com 51,5%, na segunda volta. Desde então, o sistema político tem sofrido muitas mudanças, começando pelas decisões “anti-europa” e “anti-imigração” e passando pela “quase-fusão” do poder judicial com o executivo, onde o novo governo aprovou leis para enfraquecer o tribunal constitucional e aumentar o controlo estatal dos media.

Durante a sua apresentação, Marcin Polakowski exibiu alguns anúncios propagandísticos de partidos polacos em 1998, 2004 e 2015. “Observou-se uma nítida mudança no sistema de comunicação política, com os partidos de extrema-direita a inovarem, conseguindo chegar a eleitorado que nunca votou ou que ultimamente não votava, através de promessas de ajuda aos mais carenciados e, sobretudo, aos jovens e idosos”, concluiu o docente. O sucesso da propaganda destes partidos foi também conseguido pela grande aposta nas novas tecnologias e redes sociais online, sendo o Facebook e o Twitter as principais redes de “propaganda gratuita”.

No decorrer do debate foi abordado o tema da UE, uma temática sensível para a opinião pública polaca: “A permanência na UE é um tema que começa a marcar a agenda”, sublinhou, acrescentando que “a UE não é capaz de formular uma narrativa europeia convincente”. A Polónia é agora um país com muitas dúvidas sobre o seu papel nesta instituição e as mais-valias que a mesma lhe proporciona. A política de acolhimento de refugiados e a questão da insegurança constituem os pontos mais sensíveis da discussão.

Texto originalmente publicado na Nova Magazine

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Apócrifa, o ponto de encontro de jovens poetas

O Jornal i dedica uma reportagem à revista poética nascida na FCSH/NOVA.

Por iniciativa de um grupo de alunos da FCSH/NOVA, liderado por Vasco Macedo, nasceu em 2014 a revista Apócrifa, com o objetivo de promover a difusão de obras elaboradas por jovens com idades compreendidas entre os 17 e os 30 anos.

A maioria das obras, afirmam os responsáveis, nunca tinham sido publicadas anteriormente, o que foi para muitos uma interessante janela para a divulgação de matéria própria. A mistura de juventude e originalidade têm resultado num grande sucesso: até hoje, a publicação conta com cinco números publicados e mais de mil exemplares vendidos.

Com esses dados do êxito, o Jornal i, publicou uma reportagem sobre o proposta, que busca ampliar horizontes. O texto, assinado por Cláudia Sobral, faz um repasse pela história da revista, desde os seus inícios como sessões de leitura de poesia até a criação da edição em papel, que tem difundido obras de 24 autores diferentes. Todos eles já formam parte da chamada “novíssima geração da poesia portuguesa”, pelo contacto com correntes estéticas emergentes noutros países europeus e recuperação de grandes nomes da poesia portuguesa do século XX.

Cada número é constituído por uma secção de dispersos e outra temática, onde já foram tratados Prometeu, Fausto, Cesariny, Cerberus e Narciso.

Podem ler o artigo completo aqui.

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Prémio de Jornalismo Radiofónico RUC/Antena 1/Antena 3

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Rúben Portinha, antigo aluno da FCSH/NOVA, recebe o primeiro galardão de Jornalismo Radiofónico atribuído pela Rádio Universidade de Coimbra, Antena 1 e Antena 3.

Rúben Portinha, licenciado em Ciências da Comunicação pela FCSH/NOVA, conquistou o primeiro Prémio de Jornalismo Radiofónico concedido pela Antena 1, Antena 3 e Rádio Universidade de Coimbra. A distinção surge na sequência desta última rádio estar a comemorar os 30 anos “ao serviço da comunidade”.

O vencedor concorreu ao concurso com um trabalho original sobre inclusão social intitulado “A nossa arte”, onde apresenta uma seleção de “projetos que promovem a inclusão de pessoas com deficiência no meio artístico”, afirma.

A principal motivação do jovem profissional para participar no concurso, segundo as suas palavras, “foi muito simples e natural”, garantindo que “a rádio sempre foi a minha grande paixão, o meu grande objetivo em termos profissionais, embora ainda não tenho conseguido atingir. Espero que este prémio seja um impulso para que isto possa acontecer num futuro”, completou.

O júri do Prémio de Jornalismo Radiofónico, atribuído este ano pela primeira vez, foi composto pelo jornalista e investigador Adelino Gomes, Diana Craveiro, em representação da Rádio Universidade de Coimbra (RUC), e Mário Galego, da rádio pública portuguesa. O valor monetário da distinção é de 1.500 euros.

A cerimónia de entrega do galardão vai ter lugar em Coimbra, em local a anunciar, na próxima segunda-feira, a 6 de junho.

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#Curtas: um olhar vale mais que uma palavra

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A curta-metragem “A Ordem das Palavras”, de Sara Alves, aluna da FCSH/NOVA, mostra a sua visão pessoal do tema “Igualdade de género/ Discriminação em função do género” sem pronunciar uma palavra. E já lhe valeu um prémio.

Foi com a curta-metragem “A Ordem das Palavras” que Sara Alves venceu o concurso “STOP- Sem Tabus, Opressões e Preconceitos”, lançado pelo Concelho Nacional de Juventude em 2015, demonstrando quais as palavras de ordem no mundo de hoje em relação ao papel da mulher.

A realizadora, licenciada em Ciências da Comunicação pela FCSH/NOVA, criou uma curta-metragem sem voz, apenas com algumas palavras e frases, e concebida maioritariamente a preto e branco: algo bastante simples, mas marcante, o que talvez lhe tenha proporcionado o merecido prémio. Esta escolha é visível tanto nas frases que vão aparecendo ao longo da curta, como na roupa dos próprios personagens: a rapariga, vestida de branco – metáfora da pureza, a inocência, submissão –, e os rapazes de preto, demonstrando exatamente o oposto.

A ação do filme desenrola-se num suposto palco com uma rapariga no centro – a representar as mulheres no mundo de hoje. Entretanto, vão entrando e saindo rapazes que deambulam pelo palco e usam a “mulher” como objeto para aquilo que lhes apetece. Estes vão colando as ditas “palavras de ordem” em diversas zonas do corpo da rapariga, estando esta imóvel e mostrando-nos aquilo que realmente sente apenas através do olhar – olhar este que realmente marca muito a curta. Estes acontecimentos, conjugados com frases que nos dão dados reais em relação ao tema em questão e que vão passando ao longo dos cerca de 2 minutos de filme, pretendem fazer o público pensar naquilo que ainda acontece em pleno seculo XXI.

Esta curta-metragem apresenta ainda uma banda sonora bem escolhida que dá emoção à ação e serve de certa forma como uma linha condutora. A música presente, intitulada “The Last Day”, tem também a capacidade de despertar sentimentos no público, ao evocar, em alguns momentos, repudio e ansiedade junto daqueles que observam o filme. Podemos ter também em consideração que a banda sonora escolhida tem a voz de uma mulher, o que está, decerto, relacionado com o próprio tema deste trabalho.

Além da banda sonora, existem apenas dois sons audíveis durante toda a ação – um grito conjunto de dois rapazes e o suspiro da rapariga no final quando consegue arrancar o papel onde se lê “Submissão” que está colado na sua boca. O facto de estes serem os únicos sons da curta tem muito que se lhe diga. O grito protagonizado pelos dois rapazes quando agarram o pescoço da rapariga quer demonstrar, nada mais nada menos, que a violência sofrida pelas mulheres à volta do mundo. Pode ainda querer dar a ideia da superioridade e força do homem em relação à mulher que não emite qualquer som enquanto a ação se desenrola. Já o suspiro final da rapariga parece querer representar a libertação, ou tentativa de liberdade, por parte das mulheres em relação àquilo que lhes é ainda imposto. Pode também querer mostrar o desespero pelo qual muitas mulheres ainda passam. Para além disso, este som marca o final da curta, sendo por isso um elemento bastante importante da mesma, podendo ainda transmitir aos espectadores aquilo que eles próprios sentem ao ver o filme e ao colocar-se no lugar da rapariga.

Sara Alves apresenta-nos neste trabalho a mulher como um objeto nas mãos dos homens, que lhe fazem o que querem, sem que esta consiga fazer nada. As palavras coladas no seu corpo vão desde “Demérito”, “Objeto” a “Submissão” e os toques dos rapazes na rapariga chegam até a ser chocantes, tudo isto para tocar na sensibilidade do espectador e mostrar, apenas um bocadinho, daquilo que realmente acontece.

Um trabalho bastante profissional e eficaz. Nota-se que os recursos que Sara possuía para realizar esta curta-metragem não eram muitos; no entanto, a mensagem está lá, o que o torna ainda mais poderoso.

“A Ordem das Palavras” é um grito de ajuda e, ao mesmo tempo, de apoio a todas as mulheres do mundo. De forma simples, mas bastante eficaz, o espectador é arrebatado por palavras, frases e um olhar tão fortes que é impossível ficar indiferente. A realizadora consegue mostrar com este filme que é possível falar sem pronunciar uma palavra.

A curta-metragem de Sara Alves consegue realmente cumprir o seu principal objetivo: chamar a atenção para o problema que ainda existe da igualdade de género e levar-nos a, pelo menos, pensar sobre o assunto.

Texto originalmente publicado na Nova Magazine

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O que fazer depois do PhD?

Filipa Moraes

Informar os estudantes sobre as possíveis carreiras a considerar após a vida académica é o objetivo do workshop “O que fazer depois do PhD?”, dirigido por Filipa Moraes, gestora do website Ciência Clara, doutorada em Biologia pelo ITQB/NOVA e Advanced Training Manager no Instituto de Medicina Molecular (iMM).

O evento, a realizar no dia 30 de maio, às 11 horas, no Auditório da Biblioteca da Faculdade de Ciência e Tecnologia da NOVA (FCT/NOVA), é destinado a doutorandos ou pós-docs, empresas ou coordenadores e diretores de programas doutorais e mestrado.

A entrada é livre, mas requer inscrição prévia.

Informações adicionais

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