#Curtas: um olhar vale mais que uma palavra

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A curta-metragem “A Ordem das Palavras”, de Sara Alves, aluna da FCSH/NOVA, mostra a sua visão pessoal do tema “Igualdade de género/ Discriminação em função do género” sem pronunciar uma palavra. E já lhe valeu um prémio.

Foi com a curta-metragem “A Ordem das Palavras” que Sara Alves venceu o concurso “STOP- Sem Tabus, Opressões e Preconceitos”, lançado pelo Concelho Nacional de Juventude em 2015, demonstrando quais as palavras de ordem no mundo de hoje em relação ao papel da mulher.

A realizadora, licenciada em Ciências da Comunicação pela FCSH/NOVA, criou uma curta-metragem sem voz, apenas com algumas palavras e frases, e concebida maioritariamente a preto e branco: algo bastante simples, mas marcante, o que talvez lhe tenha proporcionado o merecido prémio. Esta escolha é visível tanto nas frases que vão aparecendo ao longo da curta, como na roupa dos próprios personagens: a rapariga, vestida de branco – metáfora da pureza, a inocência, submissão –, e os rapazes de preto, demonstrando exatamente o oposto.

A ação do filme desenrola-se num suposto palco com uma rapariga no centro – a representar as mulheres no mundo de hoje. Entretanto, vão entrando e saindo rapazes que deambulam pelo palco e usam a “mulher” como objeto para aquilo que lhes apetece. Estes vão colando as ditas “palavras de ordem” em diversas zonas do corpo da rapariga, estando esta imóvel e mostrando-nos aquilo que realmente sente apenas através do olhar – olhar este que realmente marca muito a curta. Estes acontecimentos, conjugados com frases que nos dão dados reais em relação ao tema em questão e que vão passando ao longo dos cerca de 2 minutos de filme, pretendem fazer o público pensar naquilo que ainda acontece em pleno seculo XXI.

Esta curta-metragem apresenta ainda uma banda sonora bem escolhida que dá emoção à ação e serve de certa forma como uma linha condutora. A música presente, intitulada “The Last Day”, tem também a capacidade de despertar sentimentos no público, ao evocar, em alguns momentos, repudio e ansiedade junto daqueles que observam o filme. Podemos ter também em consideração que a banda sonora escolhida tem a voz de uma mulher, o que está, decerto, relacionado com o próprio tema deste trabalho.

Além da banda sonora, existem apenas dois sons audíveis durante toda a ação – um grito conjunto de dois rapazes e o suspiro da rapariga no final quando consegue arrancar o papel onde se lê “Submissão” que está colado na sua boca. O facto de estes serem os únicos sons da curta tem muito que se lhe diga. O grito protagonizado pelos dois rapazes quando agarram o pescoço da rapariga quer demonstrar, nada mais nada menos, que a violência sofrida pelas mulheres à volta do mundo. Pode ainda querer dar a ideia da superioridade e força do homem em relação à mulher que não emite qualquer som enquanto a ação se desenrola. Já o suspiro final da rapariga parece querer representar a libertação, ou tentativa de liberdade, por parte das mulheres em relação àquilo que lhes é ainda imposto. Pode também querer mostrar o desespero pelo qual muitas mulheres ainda passam. Para além disso, este som marca o final da curta, sendo por isso um elemento bastante importante da mesma, podendo ainda transmitir aos espectadores aquilo que eles próprios sentem ao ver o filme e ao colocar-se no lugar da rapariga.

Sara Alves apresenta-nos neste trabalho a mulher como um objeto nas mãos dos homens, que lhe fazem o que querem, sem que esta consiga fazer nada. As palavras coladas no seu corpo vão desde “Demérito”, “Objeto” a “Submissão” e os toques dos rapazes na rapariga chegam até a ser chocantes, tudo isto para tocar na sensibilidade do espectador e mostrar, apenas um bocadinho, daquilo que realmente acontece.

Um trabalho bastante profissional e eficaz. Nota-se que os recursos que Sara possuía para realizar esta curta-metragem não eram muitos; no entanto, a mensagem está lá, o que o torna ainda mais poderoso.

“A Ordem das Palavras” é um grito de ajuda e, ao mesmo tempo, de apoio a todas as mulheres do mundo. De forma simples, mas bastante eficaz, o espectador é arrebatado por palavras, frases e um olhar tão fortes que é impossível ficar indiferente. A realizadora consegue mostrar com este filme que é possível falar sem pronunciar uma palavra.

A curta-metragem de Sara Alves consegue realmente cumprir o seu principal objetivo: chamar a atenção para o problema que ainda existe da igualdade de género e levar-nos a, pelo menos, pensar sobre o assunto.

Texto originalmente publicado na Nova Magazine

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O que fazer depois do PhD?

Filipa Moraes

Informar os estudantes sobre as possíveis carreiras a considerar após a vida académica é o objetivo do workshop “O que fazer depois do PhD?”, dirigido por Filipa Moraes, gestora do website Ciência Clara, doutorada em Biologia pelo ITQB/NOVA e Advanced Training Manager no Instituto de Medicina Molecular (iMM).

O evento, a realizar no dia 30 de maio, às 11 horas, no Auditório da Biblioteca da Faculdade de Ciência e Tecnologia da NOVA (FCT/NOVA), é destinado a doutorandos ou pós-docs, empresas ou coordenadores e diretores de programas doutorais e mestrado.

A entrada é livre, mas requer inscrição prévia.

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Almada – A vida e a obra eternizadas ao público

450836Há um grupo de investigadores que tem vindo a trabalhar em torno do espólio de Almada Negreiros, um dos autores mais notáveis da geração de Orpheu. Centenas de documentos que vão desde cartas anónimas a fragmentos de poesia já se encontram digitalizados e disponíveis ao público por via da Internet.

Num dos escritórios de um edifício antigo junto ao Miradouro de Santa Catarina em Lisboa, também conhecido como Adamastor, podemos encontrar o espólio de Almada Negreiros que se encontra à guarda dos seus herdeiros. Nesse mesmo espaço – onde a arte e a história se cruzam e florescem a cada instante – acumulam-se inúmeros documentos de todos os tipos pertencentes a uma das figuras mais ímpares da cultura portuguesa. No escritório trabalham todas as semanas investigadores que desenvolvem tarefas como a catalogação da obra e da vida de Almada e da sua mulher, Sarah Affonso.

A poesia flutua no silêncio da sala. O olhar cruza-se com uma miríade de objectos que espelham o homem e o génio. Numa das faces da mesma encontramos uma fotografia de grandes dimensões, a preto e branco de Almada Negreiros. A sua expressão é serena e contemplativa. Nos flancos, na geometria das estantes, concentram-se dossiers que acumulam o pó e a vida. Na lombada de um deles podemos ler “Manifesto Anti Dantas”. Sobre a ampla secretária que ocupa uma área significativa do escritório, Sílvia Laureano Costa – uma das investigadoras que trabalha em prol do espólio do autor – pousa com minúcia um envelope pertencente ao ano de 1917 que já foi exposto e publicado em alguns catálogos: “Julgamos que terá sido o envelope que serviu para Almada enviar ao Amadeu de Souza Cardoso as provas do K4 – o quadrado Azul”.

A investigadora encontra-se neste momento a desenvolver a sua tese de doutoramento sobre o “Teatro e a Estética Teatral de Almada Negreiros”. Desde 2011 que se juntou ao projecto de investigação, tendo sido bolseira durante três anos. O mesmo passou a ser financiado em 2011 pela FCT, ainda que a sua origem remonte ao ano de 2001: “Na pré-história deste projecto está o Luís Miguel Gaspar que foi ter com a família a fim de editar a obra de Almada na editora Assírio e Alvim. Depois, juntaram-se a ele o professor Fernando Cabral Martins e a Mariana Pinto dos Santos”.

O financiamento da FCT terminou no final de 2014. Houve igualmente o apoio da Biblioteca Nacional e da Fundação Calouste Gulbenkian. Actualmente a equipa de investigadores (coordenada por Fernando Cabral Martins) conta apenas com o apoio do IELT – que disponibiliza e continuará a disponibilizar bolsas para que haja novos investigadores a trabalhar em prol do espólio – bem como da família do autor que tem sido fundamental ao proporcionar não só o espaço para que o trabalho seja desenvolvido, mas também possibilitando o acesso a inúmeros arquivos. Não obstante, o projecto de investigação carece actualmente de financiamentos públicos ou privados que o possam catapultar.

No que concerne ao projecto Modernismo, este encontra-se directamente ligado ao trabalho que é desenvolvido em prol do tratamento do espólio do artista português mais multifacetado da geração dos anos 10. É no portalwww.modernismo.pt que podemos encontrar um número muito significativo de arquivos que reflectem a vida e a obra de Almada. Contudo, o projecto não se limita ao mesmo, pretendendo abarcar as obras de outros autores do modernismo: “Temos em vista uma parceria com a Casa Fernando Pessoa, um trabalho sobre o espólio de Mário de Sá-Carneiro ou, por exemplo, uma colaboração com a Biblioteca de São Miguel que tem à sua guarda o espólio de Côrtes-Rodrigues”, esclarece Sílvia Laureano Costa.

Manuela Parreira da Silva é professora auxiliar no Departamento de Estudos Portugueses da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. No que diz respeito aos trabalhos de investigação, dedica-se ao estudo dos espólios de Fernando Pessoa e de Almada Negreiros. As suas funções centram-se no âmbito da correspondência. A investigadora sublinha a importância desta área: “O espólio epistolar de um autor é reconhecidamente considerado da maior relevância não só para o conhecimento da sua biografia, mas sobretudo da sua obra. Ele permite, por exemplo, datar documentos e assistir à génese de determinados trabalhos. No caso de Almada, é importante ver em que circunstâncias se fizeram e aceitaram/recusaram encomendas, além de poder conhecer o modo como o autor foi vivendo, e às vezes sofrendo, o seu processo criativo”.

A correspondência do autor encontra-se organizada por ordem alfabética e é variada na sua tipologia. Existem cartas de amigos, outras encontram-se relacionadas com questões laborais, como são exemplo as cartas oriundas da Sociedade Portuguesa de Autores, entre outros tipos de correspondência. Existe um documento particularmente curioso que Almada decidiu conservar até ao fim da sua vida e que se trata de uma carta anónima onde alguém criticava o autor, defendendo que o mesmo não tinha qualquer aptidão para a geometria e que deveria deixar de se dedicar a esse âmbito.

Simão Palmeirim Costa é investigador do projecto e encontra-se concomitantemente a realizar o doutoramento em Ciências da Arte como membro do CIEBA, da FBAUL, com bolsa da FCT. É na componente da geometria e das obras plásticas que se foca o seu trabalho de investigação em torno do espólio de Almada Negreiros. As suas funções abarcam a inventariação e captação de imagens, tanto de desenhos e de vários cadernos de estudo, como de textos do autor: “Isto tem levado, em colaboração com o professor Pedro J. Freitas, a uma série de novos desenvolvimentos no que diz respeito a uma compreensão aprofundada das obras icónicas de Almada Negreiros, como as quatro pinturas de 1957 da colecção do Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian, ou o grande painel gravado em pedra no átrio da mesma fundação, intitulado Começar, de 1969″, revela o investigador.

Neste momento, aproxima-se dos dois mil o número de documentos de Almada que se encontram catalogados. Estima-se que ainda esteja por inventariar o dobro dos arquivos de espólio pertencentes à família. Pela sua dimensão e relevância para a cultura portuguesa – tanto o projecto de investigação sobre o espólio de Almada Negreiros, como o projecto Modernismo – devem contar com um financiamento regular e significativo.

Texto originalmente publicado na Nova Magazine

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Alunos da NOVA a caminho de Fátima

NEC

O que motiva um universitário a peregrinar a Fátima em pleno mês de Junho, podendo aproveitar para descansar, ir à praia ou estudar para os exames?O Núcleo de Estudantes Católicos (NEC) da FCSH/NOVA está a organizar a sua primeira peregrinação a Fátima. Os universitários partem no dia 8 de Junho de Lisboa e regressam no dia 12. O objetivo da peregrinação é ajudar os jovens a meditar e apensar no que é verdadeiramente importante para eles.

Matilde Bonvalot, de 20 anos de idade, é a coordenadora do NEC há um ano. Considera que organizar a primeira peregrinação vai ser “uma aventura”. “O NEC já tem alguns anos, mas foi apenas neste que começámos a investir mais em programas semanais, mensais, e outros pontuais. A peregrinação será o ponto alto do nosso segundo semestre”. Os jovens partirão de Lisboa (local exato ainda em estudo) e vão caminhar até ao santuário de Fátima durante quatro dias, acompanhados pelo padre Nuno Amador, responsável pela pastoral universitária. Vão ser-lhes proporcionados vários temas que os ajudem a rezar e meditar durante o percurso. Haverá também muito tempo para conviver e fazer novas amizades com pessoas que partilham os mesmos ideais e convicções.

António Telles Costa, estudante de Arqueologia na FCSH/NOVA, já reservou essa semana na agenda para se juntar ao NEC na peregrinação. Para ele, a grande razão que o motiva a fazer a caminhada é a fé. “Saber que quando voltarmos vimos de lá cheios. Cheios de quê? Não sei, talvez de uma alegria que não tem explicação e que todos podemos experimentar.”

O estudante afirma também que para além de encontrar muitas respostas para a sua vida, encontra-se a si mesmo. “Cada vez que faço uma peregrinação, sinto que me encontro a mim mesmo. Cada testemunho que ouvimos, cada experiência que vivemos, cada partilha que fazemos e cada amigo que trazemos para casa. São estes momentos e estas amizades, as chamadas ‘amizades em Cristo’, que nos fazem crescer e saber o que queremos.”

O NEC da FCSH/NOVA foi criado em 2011 depois do primeiro ano de Missão País na faculdade. A Missão País é um projeto católico que organiza e desenvolve Missões Universitárias em várias faculdades de Portugal: de Braga a Beja passando pelo Porto, Lisboa e Coimbra. Trata-se de uma semana de acção social que decorre entre o 1º e o 2º semestre na qual, todos os anos, milhares de jovens dão testemunho da sua fé pretendendo mostrar como ela se vive através da caridade e do serviço aos outros.

Inspirados na semana de Missão, alguns universitários da FCSH/NOVA consideraram importante criar um grupo de onde surgiram varias iniciativas sociais: terço às quartas-feiras na faculdade, almoços, missas para universitários, convívios e agora a peregrinação anual. Segundo a coordenação atual do NEC, “o objetivo é contribuir para formar católicos coerentes com a fé que se destaquem pelo seu compromisso com a Igreja, com a sociedade e com o estudo”. O NEC tem vindo a crescer e atualmente conta com quarenta membros.

A peregrinação é aberta a todos os universitários independentemente da faculdade que frequentam. Porém, é dada prioridade na inscrição, entre os dias 5 e 25 de Maio, aos estudantes da FCSH/NOVA, pois as vagas são limitadas. Os alojamentos e outros pormenores de logística ainda estão por definir.

Texto originalmente publicado na Nova Magazine

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Voleibol no feminino: a NOVA aposta

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Quando o apito soa no pavilhão do Estádio Universitário de Lisboa, o ambiente torna-se simultaneamente de concentração e descontração. O primeiro serviço é feito e todas as jogadoras da equipa de voleibol da FCSH/NOVA, que se apresentaram ao treino, esforçam-se para obter o maior número de pontos. À aparente rivalidade, junta-se o companheirismo de quem deseja que a equipa melhore a cada treino, numa constante troca de dicas e frases de incentivo gritadas para campo.

É exatamente de forma positiva que Stefanie Wacek, aluna de terceiro ano em Ciências da Comunicação na FCSH/NOVA, caracteriza os treinos de equipa. “O ambiente dos treinos é sempre tranquilo e divertido, sem grande pressão ou algo do género”, conta Stefanie. “Já faço parte da equipa desde o início da minha licenciatura, em 2013, e foi este ambiente descontraído que me foi conquistando”, explica. A atleta já praticava desporto na sua terra natal, Portimão, e quando chegou a Lisboa sentiu que não podia parar. Foi nesse momento que descobriu a paixão pelo voleibol: “Praticava canoagem antes de vir estudar para Lisboa e quando cá cheguei queria continuar a fazer algum desporto. Uma amiga minha que já fazia vólei há mais tempo soube que havia uma equipa na faculdade e convenceu-me a experimentar. Apesar de nunca ter feito um desporto de equipa e de bola, acabei por gostar e ficar na equipa”, conclui Stefanie.

Stefanie Wacek junta-se a muitos outros adeptos que o desporto universitário tem conquistado ao longo do tempo. São milhares os alunos federados e não federados que praticam regularmente desporto em contexto universitário, vestindo a camisola pela Faculdade ou Instituto Superior que frequentam. Na capital, a Associação Desportiva do Ensino Superior de Lisboa (ADESL) conta com sete modalidades nas quais os alunos universitários se podem inscrever, sendo que cinco delas se encontram divididas em equipas para cada um dos sexos.

O aumento do interesse e adesão ao desporto por parte dos alunos universitários às modalidades que lhes são oferecidas deve-se, em grande parte, ao incentivo de colegas de faculdade que praticam ou já praticaram algum desporto. Como destaca Bruno Morais, treinador da equipa feminina de voleibol da FCSH/NOVA, “chegam cada mais atletas ou ex-atletas às faculdades e isso tem vindo a ajudar a aumentar o número de participantes no desporto universitário”. No que ao voleibol feminino diz respeito, a ADESL já conta com vinte e uma equipas de faculdades e institutos superiores que fazem parte da Primeira Divisão desportiva, e das quais três são equipas de faculdades da Universidade Nova de Lisboa. De facto, as alunas da NOVA têm conquistado o seu lugar nos rankings dos campeonatos universitários de voleibol. A equipa de voleibol feminina da Faculdade de Ciências e Tecnologias (FCT), da Faculdade de Economia (NovaSBE) e da FCSH tem registado resultados positivos, alcançando posições meritórias nos campeonatos de primeira divisão, nomeadamente o título de campeãs no campeonato de 2012-2013 pela NovaSBE, em 2005-2006 e 2010-2011 pela FCT e o título de vice-campeãs da segunda divisão no campeonato de 2014-2015 pela FCSH, o melhor campeonato da equipa até à data, conseguindo ascender à primeira divisão.

Margarida Reis é uma atleta federada em voleibol que, a partir do segundo ano da sua licenciatura na NovaSBE, decidiu tirar algum do seu tempo para integrar também na equipa de voleibol da faculdade onde estuda. “Jogo voleibol a nível profissional há muito tempo, por isso foi interessante para mim integrar a equipa da minha faculdade. Apesar de não ter possibilidade de frequentar os treinos universitários, por integrar uma equipa federada que treina todos os dias, acho a equipa bastante esforçada, treinam bastante e notou-se uma evolução técnica ao longo do ano”, relata a atleta.

Apesar da paixão pelo desporto, o último campeonato universitário (2015-2016) não correu da melhor forma para nenhuma das equipas femininas de voleibol da NOVA. A equipa da FCT alcançou o sexto lugar na tabela de classificação, conseguindo manter a sua posição na primeira divisão. Porém, para Cláudia Silva, jogadora da referida equipa, a classificação ficou aquém da esperada: “O último campeonato universitário foi a pior prestação da equipa até à data. Nos anos anteriores a equipa conseguiu apurar-se para o Campeonato Nacional Universitário ou, quando isso não aconteceu, tinha uma presença assídua nas fases finais do Campeonato Universitário de Lisboa”. Na época anterior, a equipa feminina de voleibol da FCT conseguiu até colocar-se entre a quinta e oitava posição a nível nacional.

Já as equipas da NovaSBE e da FCSH acabaram mesmo por descer de divisão no último campeonato universitário, na sequência de terem ficado, respetivamente, no penúltimo e último lugar da tabela de classificação. Com uma única vitória da sua equipa no último campeonato, Bruno Morais considera que “faltou da parte de muitas atletas algum compromisso, algo que dificultou o treino enquanto equipa e que comprometeu o seu entrosamento”. Segundo o treinador, em termos de jogo a maior fraqueza da equipa está na finalização: “As jogadoras já defendem relativamente bem, recebem bem também. A passadora é muito boa mas falta à equipa ser mais incisiva na hora de acabar”.

Também António Coelho, treinador da equipa de voleibol feminino da NovaSBE, relembra o motivo que provocou a descida de divisão. “Mesmo com uma vitória no último jogo acabámos por descer de divisão.  A falta de comparência durante o campeonato foi o desastre. Se não tivesse ocorrido tínhamos ficado na primeira divisão”, lamenta António.

O treinador reconhece as boas qualidades técnicas que as jogadoras da equipa da Nova SBE têm a nível individual. No entanto, a falta de comparência aos treinos poderá ser, no parecer do treinador, o maior problema que a equipa enfrenta, com implicações diretas e prejudiciais nos jogos. Segundo António Coelho, “o problema é a falta de vontade de ir aos treinos, e nos jogos nota-se a falta de comunicação”. O facto de os treinos serem sempre marcados à noite é, na opinião do treinador, o que leva as alunas a faltarem tanto.

Esta falta de comparência aos treinos não é um problema apenas da equipa feminina de voleibol da NovaSBE. Também Stefanie aponta este facto como um dos pontos mais negativos da equipa. Desde que a equipa está na primeira divisão tem direito a três treinos por semana, “mas a maior parte das vezes isso não acontece por falta de presença nossa, ou porque o pavilhão está ocupado por jogos de outras equipas e modalidades”, refere a atleta, acrescentando que a presença nos treinos “não é uma prioridade para a maioria”. Outro dos problemas que Stefanie verifica na sua equipa é a constante troca de jogadoras: “Durante os três anos em que jogo pela faculdade a equipa tem estado em constante mudança. As pessoas vêm, desistem, voltam, acabam o curso, vão de Erasmus…”. As constantes mudanças de atletas na equipa já lhe custou a perda de algumas jogadoras federadas que davam um grande contributo à equipa, bem como a perda de outras boas jogadoras que já praticavam o desporto antes de entrarem para a faculdade.

Apesar dos problemas que a equipa vai enfrentando, Bruno Morais destaca que ainda assim existe na maioria das jogadoras, além das qualidades técnicas, uma “qualidade muito interessante que é a atitude, o querer, a garra”. É o desenvolvimento desta atitude de determinação que faz com que a prática de desporto, nomeadamente em contexto universitário, proporcione aos estudantes “experiências enriquecedoras e um crescimento pessoal”, como destaca Stefanie Wacek. O facto de os alunos integrarem uma equipa, de trabalharem em grupo, de se comprometerem a comparecer a treinos e jogos, bem como toda a pressão sentida durante os jogos oficiais em campeonatos, leva a um maior “espírito de equipa e espírito de entreajuda, e desenvolve o saber conciliar responsabilidades e tempo”, salienta Cláudia Silva.

Não se trata só, portanto, de praticar um desporto de equipa que enriquece a experiência universitária, permitindo aos estudantes “conhecer imensas pessoas e criar novas amizades”, como refere Margarida Reis. Também se torna numa experiência que possibilita também uma maior preparação para momentos futuros da vida quotidiana em que se tenha de “lidar com pressão e tomadas de decisão rápidas”, tal como defende a aluna de Economia. Também António Coelho é da opinião que ao longo de todo o processo académico não se aprende só a ler livros: “É preciso algo mais e o desporto em equipa é a peça do puzzle que falta.  Os alunos aprendem a trabalhar unidos e acredito que saem daqui futuros líderes”.

Texto originalmente publicado na Nova Magazine

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Lisboa recebe teatro em contentores

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A comédia Moldes de Imagem, escrita e encenada pelo antigo aluno da Universidade NOVA António Carlos de Andrade, vai estar em cena no Village Undreground Lisboa, nos dias 6, 7 e 8 de Maio, na 4ª edição da Mostra de Teatro Breve em Contentores. A Nova Magazine foi visitar o elenco e assistir ao último ensaio antes da noite de estreia. 

No auditório da Junta de Freguesia de Campo de Ourique, as duas actrizes que protagonizam a peça Moldes de Imagem, Elizabeth Bochmann e Nina Névoa, preparam-se para o ensaio. Apesar do tamanho do auditório, um conjunto de cadeiras junto à porta restringe o espaço a um rectângulo de 6 por 2 metros, tamanho do contentor onde a peça vai decorrer. As duas actrizes estão sentadas nessas cadeiras e, apesar de descontraídas, já se concentram para encarnar as suas personagens, enquanto esperam pelo encenador meia hora atrasado.

O guarda-roupa das personagens não pode ser mais diferente, de um lado Elizabeth veste um fato de senhora, sóbrio e clássico, no outro, Nina usa um vestido de verão, descontraído e leve. “No lado de fora tem muito sucesso mas por dentro não está feliz”, é assim que Elizabeth descreve a sua personagem, a Doutora, papel que aceitou devido ao desafio de fazer uma peça em português e por não ter muitas oportunidades de representar “mulheres muito orientadas pela carreira”. A motivação de Nina é outra, contente por trabalhar com António e Elizabeth, é a primeira vez que faz teatro num nível mais profissional, fora da faculdade, e gostou muito do texto. De acordo com a jovem actriz, Joana, sua personagem, é “extrovertida, e acha que tudo lhe vai correr bem”.

Finalmente toca a campainha e chega o encenador, que rapidamente cumprimenta as pessoas na sala e, após confirmar o “espaço do contentor”, começa o ensaio. O espaço é realmente muito curto, algo que António considera mais desafiante do que difícil, para encenar a peça. Para as duas actrizes a dificuldade é diferente, sendo o maior desafio o público que vai estar a meros centímetros da acção. “Para mim é muito difícil, especialmente com pessoas que eu conheço, tenho de ignorar completamente o facto de os conhecer e pensar que estou sozinha”, diz Elizabeth, preocupação partilhada pela sua colega: “Vai ser complicado ter literalmente os meu pais a olhar para mim, mas é preciso estar focada a olhar para ela (Elizabeth) e pensar que não existe mais nada”.

O ensaio começa e, sem alguma vez interromper, o encenador vai colocando notas no seu bloco. António já tem várias peças no seu reportório, sobretudo como encenador. Tirou o curso de Línguas e Literaturas Inglesa e Portuguesa na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e estudou Artes do Espetáculo durante um semestre, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (FCSH) da Universidade NOVA de Lisboa. A sua vida profissional impediu-o de concluir o mestrado, do qual apesar da curta duração, leva o que aprendeu para as suas peças.

Para o autor, esta peça trata de mais do que uma reunião no mundo empresarial financeiro. António vê o seu trabalho como “a dinâmica interna de cada ser humano tentar ser ele próprio e até onde pode levar isso.” No entanto, também considera haver uma “crítica inerente a esse mundo do trabalho, onde há um grande influência de interesses, que muitas vezes se acaba por sobrepor ao que é mais importante: a capacidade individual.”.

A sua influência para escrever esta comédia tem duas principais fontes. Primeiro, o caso de um fã de Heavy Metal que foi dos melhores professores de inglês que conheceu, e foi despedido do seu trabalho como professor por se recusar a cortar o cabelo que sempre usou comprido. A outra grande influência foi o seu conhecimento do mundo empresarial por contacto indirecto, “um mundo onde a realidade é muito facilmente deturpada em prol do interesse de quem se quer favorecer”.

A peça é curta, menos de 15 minutos, e no final o encenador dá as suas notas e manda repetir. Passados novos 15 minutos volta a dar as notas, pergunta às actrizes se querem fazer mais uma vez mas, mas sentindo que elas estão preparadas, António dá por terminado o ensaio. É já a segunda vez que a peça vai estar em cena. A primeira foi durante todo o mês de Fevereiro em 2014 no Teatro Rápido: “Foi um sucesso, tivemos algum público, e o feedback foi positivo. Ganhámos dois prémios atribuídos por um blogger que ia ver todas as peças do teatro rápido: Melhor Dupla de Comédia; Elizabeth Bochmann e Mariana Mourato, actriz que se encontra em Inglaterra e não pode fazer parte desta nova edição, e eu, pessoalmente, Melhor Escrita de Comédia”.

Moldes de Imagem vai estar em cena no fim de semana de 6, 7 e 8 de Maio, na 4ª edição da Mostra de Teatro Breve em Contentores no Village Underground Lisboa, no Museu da Carris. Os bilhetes custam 9 euros e dão acesso às três breves peças que vão estar em cena, podendo adquirir-se nos locais habituais e na própria bilheteira do evento nos dias do espetáculo. Para além de Moldes de Imagem, também farão parte da 4ª Edição da Mostra de Teatro Breve em Contentores as peças Cidade, encenada por Sandra José e escrita por Xavier Pereira, e A Refém,de Carlos Alves. A Mostra começa às 20:30 com Moldes de Imagem, seguida às 20:55 por A Refém e, por fim, às 21:20, Cidade.

Texto originalmente publicado na Nova Magazine

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Em busca do 20, na universidade e no desporto

 

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Os alunos ao abrigo do regime especial para praticantes de desporto de alto rendimento têm dificuldade em conciliar a sua vida desportiva com a académica.

João Tiago Pereira Rodrigues é aluno de primeiro ano da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa (FCSH/NOVA) na licenciatura de Ciência Política e Relações Internacionais. Entrou neste ano ao abrigo do estatuto de atleta de alto rendimento. Em 2014, foi campeão nacional de Judo no escalão Cadete sub18 e ficou no pódio em anos anteriores. No mesmo ano, também foi campeão nacional de Jiu Jitsu dentro do seu peso e na categoria de absoluto, onde combatem pesos diferentes. Contudo, apesar de tantas honras a nível nacional, para conseguir o estatuto precisou de vencer uma luta no Campeonato Europeu de Judo sub18 de 2014, em Atenas.

“Até agora só utilizei o estatuto para fisioterapeuta, entrar na faculdade e conseguir mudar o horário para facilitar os treinos, por isso ainda não sei se vou revalidá-lo”, diz João. “Se tivesse avaliação contínua, se todas as semanas tivesse uma ficha ou mesmo uma folha de presenças, seria mais complicado.”

Francisca Marques, também estudante da FCSH/NOVA, é internacional portuguesa sénior de andebol, e joga no Colégio João de Barros de Pombal. É aluna de terceiro ano no curso de Línguas, Literaturas e Culturas. Diz que nunca teve grande problema a conciliar tempos e, sempre que isso acontece, dá prioridade aos estudos. É a única aluna da sua faculdade que manteve o estatuto activo do ano anterior para este. Um caso pouco comum.

“Não conseguimos perceber se os alunos mantêm ou não o estatuto de ano para ano”, afirma Paulo Silva, coordenador do gabinete de desporto da SASNOVA, que todos os anos recebe a lista dos alunos que entraram na universidade ao abrigo do estatuto. Porém, a lista vem apenas com os seus nomes, sem qualquer contacto. Para contactar esses alunos, tem de os procurar no Facebook e enviar uma mensagem pela rede social. Apenas pode falar sobre os que respondem e sobre esses diz que, muitas vezes, não revalidam o estatuto nos serviços académicos.

O motivo dessa desactivação varia de unidade para unidade. Na FCSH/NOVA e na NOVA School of Business and Economics o motivo da não-renovação é “positivo”: há muita flexibilidade por parte dos professores e dos serviços académicos para mudança de frequências e horários para compatibilizar com os treinos e provas. No entanto, parecem ser a excepção, pois na Faculdade de Ciências Médicas (FCM) e na Faculdade de Ciências e Tecnologia (FCT) os casos de pausa, ou mesmo abandono, na modalidade ou no curso, são mais frequentes por diferentes motivos.

Paulo menciona inúmeros casos. Em Medicina destacam-se dois: um aluno que abdicou do estatuto por medo de represálias, e o de uma aluna que pôs em pausa a sua possível ida aos Jogos Olímpicos para terminar os últimos três anos de curso. De acordo com Tiago Lopes, treinador desta aluna, a faculdade não esteve disponível para negociar os tempos fora de avaliação para treinar. Agora, já com o curso terminado, regressou ao treino em busca do bilhete para os Jogos Olímpicos.

Para Paulo, os casos da FCT estão ligados às avaliações presenciais que ocorrem quase semanalmente às quartas-Feiras e sábados. O problema é o sábado, um dia muitas vezes utilizado para torneios e provas. “Alguns professores da FCT não deixavam o aluno repetir a frequência, apenas os mandavam para exame com o peso da frequência.” Para o coordenador do desporto da SASNOVA, enquanto os casos da FCM são sobretudo devido à exigência do curso, os da FCT estão relacionados com a falta de receptividade para estes assuntos.

Nas restantes unidades da NOVA, estes casos são menos comuns. Na Faculdade de Direito, onde são poucos, ou como neste ano nenhum, os alunos que entram ao abrigo deste estatuto, houve duas ou três queixas no passado, diz Paulo, mas nada de recorrente. “São demasiado poucos os que entram com o estatuto.”

Texto originalmente publicado na Nova Magazine

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3 é a conta que Reis fez

Nuno Reis

Nascido em Lisboa, viveu alguns anos em Carnaxide, mas rapidamente voltou para a capital. Portador de uma voz inconfundível, Nuno Reis começou uma carreira na rádio muito novo. Hoje, é o diretor da Antena 3. 

Aos 14 anos, Nuno foi convidado por um amigo de uma rádio de Paço d’Arcos – a Rádio Comercial da Linha – para fazer um programa. “Ele sabia que eu tinha um bom gosto musical e já tinha a voz um bocado grossa nessa altura”, lembra. “Então convidou-me para fazer um programa ao fim de semana e, poucos meses depois, convidaram-me para fazer um programa diário.”

Os pais não concordaram totalmente, uma vez que Nuno ainda era muito novo. Porém, com grandes condições, a rádio começou a fazer parte da sua vida. “E a partir daí nunca mais parei”, conta. Nessa altura, os estudos foram ficando para segundo plano.

Há quase 30 anos, “a rádio ainda era um meio muito presente na vida dos jovens. Eu adormecia todos os dias a ouvir rádio”, lembra. Nessa altura, o atual diretor da Antena 3 seguia religiosamente três ou quatro grandes nomes da rádio. Entre eles, destaca Francisco José Viegas, António Sérgio, com o programa “Som da Frente”, António Macedo ou, atualmente, colegas seus, como Henrique Amaro.

Porém, o locutor que mais o influenciou foi Rui Morrison, com “Morrison Hotel”. “Ele muitas vezes falava no início da hora e depois só voltava a falar no fim da hora. Digamos que a conversa era feita pela música, e isso era perfeito”, afirma.

Apesar de licenciado em Ciências da Comunicação, Nuno sempre gostou da rádio pelo lado da música. “Há muitas pessoas que vêm para a rádio ou para a televisão porque gostam de comunicar. Eu nunca tive esse chamamento, para mim a rádio sempre foi música e partilhar música com os outros. É isso que me atrai, a conversa nunca foi o meu mote”.

No entanto, o diretor da 3 gosta de ouvir rádio pelo aspeto mais conversacional. “Hoje em dia o que eu procuro na rádio é a palavra, curiosamente. Eu não gosto de dar, mas procuro nos outros. É o que mais me atrai para ficar a ouvir um programa…sempre gostei de ouvir entrevistas”, revela.

 

Luís Oliveira trabalha com Nuno na Antena 3 há alguns anos, mas demoraram a desenvolver uma amizade. “Ele é tímido e passa uma imagem de distante”, revela. Eventualmente acabariam por perceber que tinham interesses em comum para além da música: “Hoje em dia diria que temos uma amizade sólida”, comenta. Luís destaca ainda a capacidade que o diretor da rádio tem de aprender depressa e perceber, perante um desafio, quais as suas forças e fraquezas. Para além disso, como amigo, Nuno “valoriza muito o convívio e motiva-se quando está a discutir e a trocar ideias, mesmo que diferentes das suas”.

Pelo meio da sua rotina diária, na qual a rádio ocupa a maior parte do tempo, Nuno gosta de incluir pequenos prazeres. “Jogar ténis, comprar música, livros, filmes” são atividades que privilegia. “Jogar ténis deixa-o muito feliz”, conta Patrícia Castanheira, que conhece o marido há cerca de 30 anos. “Se pudesse fazer uma coisa na vida era jogar ténis”, concorda o radialista. Pelo contrário, “condutores maus e lentos” estariam no top das coisas que mais o irritam.

Para além do ténis, Nuno tem uma grande paixão pelo Benfica, o seu clube desde criança, e considera “ouvir música” um hobby sem o qual não se imagina. “A música tem um papel fundamental na minha vida. Sempre teve. E ainda bem”, afirma.

Atualmente, lamenta a “falta de surpresa” para a qual a grande maioria das rádios tem caminhado. “Uma das coisas boas da rádio é que ela pode surpreender” e, sem esta capacidade, perde-se um pouco a “magia”. Com isto em mente, Nuno tenta estimular a capacidade que os locutores da rádio que dirige têm de surpreender. “Ainda hoje de manhã aconteceu, vinha no carro e a equipa da manhã passou uma música que faz parte das minhas memórias, foi um momento de epifania”, conta.

Hoje em dia, qualquer um pode vingar na rádio. “A voz é uma parte importante mas tem vindo a perder importância”, comenta. É claro que uma boa capacidade vocal é uma vantagem, porém, não tendo a chamada voz “de parar o trânsito”, um bom gosto musical ou mesmo a facilidade em comunicar, “dão a volta a essa característica menos vincada”, garante Nuno.

A experiência na Universidade Nova de Lisboa

No entanto, “quem tem uma má voz, uma voz de cana rachada, uma má dicção, dificilmente vai conseguir fazer rádio porque se torna ruído”, acrescenta. No fundo, ter uma boa voz ajuda mas “não ter uma boa voz não condena ninguém a não fazer rádio”, conclui o diretor da 3.

Apesar de se encontrar num momento mais estável da sua vida profissional, houve uma altura em que Nuno sentia que precisava de “estimular os neurónios”, algo frequentemente deixado de lado com a entrada no mercado de trabalho.

Com pouco mais de 30 anos, candidatou-se então à Universidade Nova de Lisboa e entrou no curso que queria, Ciências da Comunicação. “Foi uma experiência espetacular em várias áreas”, afirma.

Desde ler coisas que, sem ser num contexto universitário não leria, a questionar coisas que habitualmente consideramos adquiridas, ou mesmo interessar-se por matérias como Sociologia da Comunicação, vários foram os fatores que contribuíram para uma experiência universitária que Nuno caracteriza como “para lá de enriquecedora”.

Na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, descobriu “professores espetaculares, outros nem tanto”, e teve a oportunidade de conviver com “crianças”. “Essa frescura foi uma coisa muito estimulante, fazer trabalhos de grupo com miúdos de 17 anos, por exemplo”, conta.

“Era um aluno interessado e com um desempenho coerente com o facto de ser alguém que já tinha uma vasta e exigente experiência profissional”, lembra Sérgio Mah, professor na FCSH. Hoje, o docente e Nuno são amigos, tendo sido o ténis a paixão que os aproximou. “Ambos somos adeptos e praticantes obstinados deste desporto. Passámos a jogar com regularidade e rapidamente nos tornámos amigos. Além disso, temos outros interesses em comum”, conta Sérgio.

A trabalhar em simultâneo, Nuno demorou seis anos a concluir a licenciatura. “Foram tempos entusiasmantes, às vezes cansativos, complicados de gerir com o emprego”, lembra. Porém, há que ver o lado positivo: “Assim até tive descontos nos museus durante mais tempo”.

Três anos após terminar o curso, Nuno é o diretor da Antena 3 e caracteriza-se como alguém que adora o que faz. “É uma sorte espetacular gostar do que se faz todos os dias. É meio caminho andado para se ser feliz”, afirma.

Texto originalmente publicado na Nova Magazine

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Maria José Fazenda, a bailarina no palco da antropologia

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Começou a dançar por hobby na sua terra natal em Faro. Quis uma formação mais aprofundada e inscreveu-se na Escola de Dança do Conservatório Nacional. Maria José Fazenda foi bailarina e uma das primeiras mulheres a abordar a dança na antropologia em Portugal. Já não pisa os palcos, mas é protagonista de aulas, conferências e cursos de dança.

O caminho é feito através dos corredores labirínticos da Escola Superior de Dança (ESD), na Rua Academia das Ciências, em pleno Bairro Alto. Maria José Fazenda dirige-se para uma das primeiras aulas da manhã: História da Dança. São nove em ponto, o projetor já está ligado e as alunas do primeiro ano da licenciatura em Dança começam a chegar. Hoje a aula vai ser sobre o ballet de corte nos séculos XVI e XVII. Pode ler-se na projeção. “Descrevam o que viram”. É com este pedido sobre o prólogo e primeiro ato d’ A Bela Adormecida, avançando até ao século XIX, que Maria José se começa a dirigir às 12 alunas. Tem sido assim há quase 30 anos.

João dos Santos Martins, aluno de Maria José entre 2007 e 2010, destaca a forma como a professora estimulava as generalidades da dança. João começou apenas as suas aulas de dança na ESD. Antes só tinha tido um grupo amador. Maria José Fazenda foi uma das poucas pessoas que acompanhou todo o seu percurso profissional. Por isso, foi gratificante ter recebido, este ano, o prémio de Melhor Coreografia da Sociedade Portuguesa de Autores, com Projeto Continuado, sendo Maria José uma das juradas.

Revela que se acompanham mutuamente e que a investigação de Maria José é “um trabalho muito singular em Portugal na teoria sobre a dança coreográfica”. Não se esquece de que quando ia viajar, era a professora Maria José que lhe aconselhava os espetáculos que devia ver. “Ela é uma pedagoga muito apaixonada pela sua atividade”, resume.

Mas o ensino em dança começou no outro lado da rua, na Escola de Dança do Conservatório Nacional. Depois de ter feito uma formação de professores no Royal Ballet em Londres, Maria José foi convidada para dar aulas do primeiro ao terceiro ano. Se esta foi a sua paragem de 1985 a 1987, o seu caminho na dança começou no Algarve, no Conservatório de Faro. Foi aqui que a coreógrafa Madalena Victorino conheceu a jovem Zé, como lhe gosta de chamar. “Ela era mesmo muito jovem e tinha uma trança. Lembro-me lindamente”, recorda.

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Em provas no Conservatório. Maria José Fazenda entra na Escola de Dança do Conservatório Nacional em 1983.

Contudo, a jovem Zé começou a sentir a necessidade de ter um treino da dança além da atividade extracurricular. Interessou-se de tal forma, que “obrigava” a sua família a deslocar-se para Lisboa, onde fazia cursos de verão. “Havia este meu interesse pela dança e por seguir um percurso mais sério e mais diário. Percebi que aquela formação era insuficiente”, assume. Os cursos da Companhia Nacional de Bailado ou cursos organizados pela Gulbenkian foram o incentivo de que precisava para fazer uma audição ao quinto ano da Escola de Dança do Conservatório Nacional.

“Nessa altura, entrei eu e outra colega minha, que neste momento é minha colega também.” Fala de Vera Amorim. Atualmente, ambas percorrem os mesmos corredores na ESD. “A primeira imagem de que eu me lembro da professora Maria José Fazenda é dela à espera no átrio da Escola de Dança do Conservatório para entrar na sua audição.” Nesse ano estiveram as duas na mesma turma, quando terminaram o curso deixaram de ter contacto e voltaram a reencontrar-se na ESD. Desta vez era Maria José professora e Vera Amorim aluna.

Foi também neste período no Conservatório que Gil Mendo, o atual programador de dança da Culturgest, conheceu Maria José. Gil Mendo era professor na EDCN e reconheceu em Maria José uma aluna talentosa como bailarina e com fortes interesses nas questões culturais e teóricas. “Começámos por ser estudante e professor, tornámo-nos amigos e mais tarde colegas na Escola Superior.” O programador da Culturgest destaca o prazer de Maria José no “conhecimento rigoroso” e revela que muitos dos espetáculos que agenda os vê com Maria José.

Mas ainda com aulas de dança no Conservatório, Maria José Fazenda inscreveu-se em Antropologia na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas. “Queria fazer Antropologia, não tinha dúvidas sobre isso.” Foi um período muito exigente, como a própria assume. Um dos pontos positivos era o facto de viver num lar de estudantes em São Sebastião da Pedreira, um local muito central. “Agora fechou e é um hotel de luxo, mas ainda lá está a janela onde era o meu quarto”, recorda com nostalgia.

Na Avenida de Berna, onde se situa a Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, descobriu que a antropologia e a dança se podiam conciliar. Numa turma relativamente pequena, os professores acompanhavam de perto a sua atividade. “Todos aqueles professores com quem eu trabalhava sabiam que eu fazia dança. Aliás, um deles, o Jorge Fragoso, o saudoso Jorge Fragoso, chegou a vir aos meus exames no Conservatório Nacional.”

Estranhezas é uma peça estreada em 1990. Com coreografia de Paula Massano, Maria José Fazenda destaca também o contacto com dois outros criadores que apreciava muito: o compositor António Miliano, com quem tem mais tarde uma relação amorosa e com o Nuno Carinhas, que na altura fazia essencialmente trabalho de figurinos e de cenografia.

Estranhezas é uma peça estreada em 1990. Com coreografia de Paula Massano, Maria José Fazenda destaca também o contacto com dois outros criadores que apreciava muito: o compositor António Emiliano, com quem tem mais tarde uma relação amorosa, e com o Nuno Carinhas, que na altura fazia essencialmente trabalho de figurinos e de cenografia.

Nas aulas apontava todas as referências alusivas ao corpo e quando viajava aproveitava para comprar livros de antropologia que não existiam em Portugal. Ainda se recorda quando descobriu Anthropology of Dance, de Anya Peterson Royce. “Quando fui a Londres e descobri o livro disse: ‘Existe uma coisa que se chama antropologia da dança, que é o que eu quero fazer’”, relembra com entusiasmo. Foi a partir daí que descobriu que existiam antropólogas que tinham sido bailarinas e que tinham criado algo que se chamava Antropologia da Dança. Em plenos anos 80, enviou-lhes cartas para os EUA. “Tenho cartas da Joann [Kealiinohomoku] escritas à máquina.”

Tal e qual como as antropólogas Cynthia Novack ou Susan Foster, Maria José Fazenda teve experiência como bailarina. Dançou no Dança Grupo, com Paula Massano e com Madalena Victorino. Madeira Matéria, Materiais Pretexto para uma Ideia de Dança  é uma das peças que melhor recorda. O espaço era o Museu da Água e dançava com um engenheiro num espetáculo criado propositadamente para os dois. A preparar o espetáculo Companhia Limitada no Teatro Nacional D. Maria II, Madalena Victorino revela: “Naquela altura eu arranjava os elencos pelas pessoas que me aconteciam na vida. A Zé nessa fase aproximou-se muito de mim e da minha vida. Portanto, era natural que ela participasse”.

Madeira Matéria, Materiais Exportados para uma ideia de dança criada, em 1989, por Madalena Victorino. A criação foi pensada para Maria José Fazenda, bailarina, e José João Henriques, engenheiro civil. A criação e análise começou por ser feita na casa da própria coreógrafa.

 Madeira Matéria, Materiais Pretexto para uma Ideia de Dança criada, em 1989, por Madalena Victorino. A criação foi pensada para Maria José Fazenda, bailarina, e José João Henriques, engenheiro civil. A criação e análise começou por ser feita na casa da própria coreógrafa.

Foi ainda no Dança Grupo que encontrou Vera Amorim de novo e ainda chegou a dançar dois espetáculos. Mas confessa: “Para mim o que era importante era a construção das peças”. Ainda chegou a fazer uma audição para o Ballet Gulbenkian, em que não entrou, mas para si o mais importante era a experiência. “O dançar era importante, mas não o estar em palco. Isso eu percebi muito rapidamente. Hoje eu tenho um prazer infinito em dar uma conferência.”

Maria José Fazenda em Diário de um Desaparecido filmado na Tapada da Ajuda, em 1992 , para a RTP.

Maria José Fazenda em Diário de um Desaparecido filmado na Tapada da Ajuda, em 1992 , para a RTP.

Paula Teixeira, amiga há 18 anos, revela o contágio que Maria José causa com as conferências. Além do interesse profissional, a editora executiva da Agenda Cultural de Lisboa, diz que a amiga lhe vai contando pormenores. “Depois, é difícil resistir a conhecer a versão final”, remata Paula.

“Eu vejo as pessoas e eu gosto de ver as pessoas com quem estou a comunicar”, afirma Maria José sobre a sua interação com o auditório. É por isso que se encontra hoje a dar aulas na Escola Superior de Dança. A aula já vai a meio e as alunas não se restringem a fazer questões. “De onde é que isto vem? É uma boa inquietação”, diz Maria José sobre os desafios colocados pelas suas ouvintes. Mesmo estando no século XVII, as comparações da professora com a atualidade não param: “Quem fazia as suites eram os DJs da altura. Era música alive”. Surge a animação geral na aula.

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Alunos de 2004 como Bruno Alexandre – que se estreia hoje (29 de abril), como intérprete, Antes que matem os Elefantes, com a Companhia Olga Roriz – ainda sentem o eco das aulas de Maria José. “As questões que eram trabalhadas nas aulas ainda ressoam em mim, e duma forma particularmente vibrante agora que me encontro num duplo desafio: o de coreógrafo e o de estudante de Mestrado em Artes Cénicas na FCSH, que se está a propor criar ligações entre Dança e Cinema.”

Foi como coreógrafo em Cinemateca que Bruno ouviu um feedback muito positivo da sua antiga professora. Enquanto intérprete diz que, mesmo mais tarde, chega-lhe sempre a sua opinião e confessa: “Sabe sempre bem”.

Desde 1988 que a Escola Superior de Dança tem sido parte da casa de Maria José. A Comissão Instaladora da ESD convidou-a para lecionar uma nova cadeira: Antropologia da Dança. Começou com um seminário e depressa se estendeu para uma disciplina. Foi logo nesse primeiro ano que encontrou como aluna a atual Diretora da Escola Superior de Dança, Vanda Nascimento. Vinda aos 25 anos da Escola de Dança da Secretaria de Estado da Cultura, em Angola, Vanda destaca: “Posso dizer que a Maria José foi uma pessoa muito importante na minha formação, porque eu tinha uma formação muito prática”. Foi uma abertura ao conhecimento e à escrita. “Ainda hoje quando escrevo um texto é à Maria José a correr que eu vou. E quando ela me dá a apreciação eu fico super descansada.”

Hoje Maria José alargou o leque das suas disciplinas na ESD. “Depois de ter feito todo esse trabalho de caráter antropológico foi importante retomar a importância da história,” afirma. Daí surgiu como professora de História da Dança. “Onde é que o criador se situa, onde é se posiciona, de que lugar ele vê o mundo?Trabalhar sobre um criador em Portugal é diferente de um criador que está em Inglaterra ou que estava nos EUA,” explica. Outra das suas disciplinas é Apreciação da Dança, que conta com a sua experiência de dez anos no jornal Público.

Durante muito tempo fez um trabalho que classifica como obsessivo a nível da escrita de dança. Desde entrevistas, previews e críticas, a sua ideia sempre foi uma: “Estou a escrever para um leitor que não conheço. Eu não escrevia para o artista nem para o bailarino”. E como é que o fazia? “Eu lia muitas vezes uma secção que havia no Público que eram as cartas ao Diretor.” Aí percebia quem eram os leitores do jornal. “Essa era a minha bitola.”

Dessa altura recorda-se das entrevistas que fez a Yvone Rainer, a Merce Cunningham ou a Bill T. Jones. Também não esquece os grandes jornalistas e os diretores com quem foi contactando e aprendendo. Relembra com saudade Vicente Jorge Silva e recorda a confiança depositada nos colaboradores: “Para sair ao estrangeiro e ver obras eu dizia: ‘Vicente olhe, eu acho que isto é muito importante porque a obra vem cá e eu tenho expetativas que ela seja muito importante’. Ele olhava para mim e dizia-me: ‘Você acha que isso é mesmo importante?’ E eu dizia: ‘É, é muito importante’. ‘Então vá, vá tratar da viagem’.”

O seu interesse pelo jornalismo começou na sua adolescência, ainda quando estava no Algarve. A adolescente Maria José recolhia notas, entrevistas e fotografias, depois publicadas no Correio da Manhã.Ainda sem carta de condução, precisava de ajudas e foi aqui que entrou a sua tia Glória Pereira. A tia levava ao local e ainda hoje se recorda duma situação em particular.Num domingo pela manhã, fui acompanhar a ‘jornalista’ a uma lixeira a céu aberto, junto à Ria Formosa, perto de Olhão, onde viviam famílias em barracas e onde as crianças brincavam enquanto procuravam restos de comida.”

Assume nunca ter sido escritora e para entrar nos artigos, lia Eça de Queirós para apurar a pontuação e Proust para aperfeiçoar a descrição. Saiu do jornal em 2002: “Acho que é preciso renovar e depois apareceram outros jovens como a Lucinda Canelas”.

Outros dos motivos pelo qual deixa de colaborar no jornal é por não conseguir conciliar com o trabalho académico. Diz que não é de fazer as coisas a meio. “Tenho muito esta presunção de ser útil. Penso sempre como posso ser útil em determinado contexto e para a comunidade.” É por essa presunção que continua a fazer conferências, não necessariamente para um público especializado em dança, como é o caso do Curso de História da Dança na Companhia Nacional de Bailado (CNB).

Numa sala de aulas adaptada dentro de um estúdio no Teatro Camões, Maria José é auxiliada por Pedro Mascarenhas, antigo bailarino da companhia e atual assistente no Departamento de Comunicação. O curso faz um percurso pela História da Dança permitindo aos alunos verem ensaios e espetáculos da CNB. A sala preenche-se com médicos, advogados, psicólogos ou professores de dança e para Pedro tudo tem resultado porque a Maria José “é super comunicativa, tem uma abordagem muito prática e muito acessível”.

Revela que quando era bailarino acompanhava os seus artigos no Público. Pessoalmente, apenas a conheceu há dois anos a propósito da conferência sobre o bailado Quebra Nozes. Desde ali que o debate entre os dois começou e ainda hoje Pedro confessa: “Às vezes estamos em desacordo, mas de uma forma muito boa. Ok, eu vou perceber o que me estás a dizer.”

Para uma das capacidades que mais elogia em Maria José é a sua posição de isenção sobre o que está a falar. “É deslumbrada mas sem o ser, sem a influenciar. Ela consegue falar num período, numa época e num bailado independentemente daquilo que ela acha e isso é extraordinário.”

Quanto aos espetáculos, continua a acompanhar. “Tenho arquivos de notas sobre muitos espetáculos a que assisti, que me são sempre muito úteis para as aulas e futuramente para textos”. Um dos últimos a que assistiu foi Rule of Thirds, protagonizado por quatro dos seus antigos alunos. “Também tirei essas notas e depois passei para computador. Fica logo tudo limpinho.”

Margarida Belo Costa foi uma das alunas desse espetáculo e foi com prazer que recebeu o sorriso e a felicitação da sua antiga professora na estreia da peça. Aluna entre 2009 e 2012, recorda as aulas como “momentos de partilha”. Assume que as suas lições a ajudaram enquanto espetadora e na passagem para a vida profissional. “Ajudou-me no sentido de contextualização, relativamente à inserção do meu trabalho enquanto bailarina e criadora nos dias de hoje, ao tipo de pensamento e à sua análise.”

Também é Maria José que leva os seus amigos a espetáculos. Susana Pina é amiga de Maria José desde 1996 e revela que quando quer levar os seus filhos a espetáculos recorre a Maria José. Faz questão de destacar o sentido de serviço público da sua amiga e Presidente do Conselho Técnico-Científico: “Tenho-a visto recusar alguns convites para cargos, que seriam, a vários níveis, apetecíveis”.

Revela a personalidade multifacetada da amiga Maria José: “Na mesma conversa, podemos entrar num registo confessional e psicanalítico, discutir acirradamente qualquer assunto da atualidade e transitar abruptamente para wishlists de malas e sapatos”. Também Madalena Victorino destaca em modo divertido que a sua Zé se veste muito bem e é muito atenta à sua imagem. É assim que uma das suas alunas em aula, Sara Pereira, também a classifica: “Ela é uma diva”. As restantes colegas aprovam.

A aula está quase a terminar. Depois de se falar sobre os espetáculos do Rei Sol, as folhas de sala e de se questionar de onde vem o ballet, chegou a hora de falar das danças sociais da época. Maria José Fazenda levanta-se e começa a exemplificar o minuet, uma dança em fila, em que duas estudantes a ajudam. Susana Vilar, uma das alunas na aula, destaca a valência desta disciplina estrutural: “Consigo relacionar o conceito da dança com a dança que eu faço todos os dias”. É isso que a professora Maria José Fazenda pretende.

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Quanto à sua dança, mesmo que já não seja em palco vai ser sempre parte da sua vida. “Continuo a ver a dança como uma profissional, como um escritor ou alguém que estuda literatura, que certamente não poderá deixar de ler o maior número de livros possível.”

Texto originalmente publicado na Nova Magazine

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Grupo de Teatro da Nova: uma estreia e um regresso aos palcos já em Maio

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O Grupo de Teatro da Nova volta aos palcos no mês de Maio, com a estreia de O Percevejo e o regresso de Pánica.

O Percevejo, com encenação da atriz Marina Albuquerque, vai estar em cena no Teatro do Bairro, entre os dias 3 e 8 de Maio. Também a peça Pánica, produzida no ano passado, regressa, num espectáculo em Coimbra, a 18 de Maio.

O Grupo de Teatro da Nova (GTN) traz consigo uma longa história no teatro universitário em Portugal. Actualmente, tem a atriz e encenadora Marina Albuquerque a dirigir e conta com cerca de 15 alunos, representativos de várias universidades, mas, principalmente, da Universidade Nova de Lisboa. Os ensaios decorrem duas vezes por semana, às segundas e quartas-feiras, e têm lugar no piso -4 da Torre B da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas.

O Percevejo estreia-se a 3 de Maio 

O GTN está neste momento a ensaiar O Percevejo, cuja estreia está marcada para o dia 3 de Maio, no Teatro do Bairro, localizado no Bairro Alto em Lisboa. Nesse mesmo dia, o GTN irá também fazer uma sessão especial no âmbito Festival Anual de Teatro Académico de Lisboa.

Nas palavras de Marina Albuquerque, está é “uma peça visionária, uma comédia futurista”. Vladimir Mayakovsky, autor da peça, foi um dos grandes poetas da revolução soviética e do Futurismo Russo.

O Percevejo “é um bocadinho o Mayakovsky a gozar com as personagens que ele conhecia, com os membros do partido e por isso foi muito criticado”, explica a encenadora.

A peça começa nos anos 20 de Mayakovsky, mas faz uma viagem ao futuro imaginado pelo autor: “é como se fôssemos ver o que é o socialismo 50 anos depois. O protagonista acorda e diz, mas o que é isto? É só máquinas, máquinas, máquinas, as pessoas já não têm emoções, já não praticam sexo, isso já está resolvido, isso são coisas que já nem se sabe o que é que é”.

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Apresentação especial de Panica 

Panica, de Alejandro Jodorowsky, foi a peça que o grupo apresentou ao público no ano passado. Um espectáculo mais contemporâneo, marcou, em 2001, o regresso do autor ao teatro, depois de muito tempo a fazer cinema e banda desenhada. O GTN esgotou todos os espetáculos realizados e, no próximo mês de Maio, Pánica volta ao palco.

O espetáculo acontecerá em Coimbra, no Teatro Académico Gil Vicente, no âmbito de uma mostra de Teatro Universitário. Marina Albuquerque refere ainda que “No ano passado fomos à Corunha, foi muito giro, ao Festival Internacional de Teatro Universitário. Este ano também fomos convidados, mas eles acabaram por cancelar o festival”.

O teatro é “quase mágico” 

Os membros do GTN destacam a importância que o grupo tem para a sua formação pessoal, apesar de quão trabalhoso o projeto é. “Aprendi mais ali do que nos três anos de faculdade, cresci muito, conheci muita gente, fiz amigos para a vida e diverti-me imenso”, diz Marta Silva Correia, que participa desde o seu primeiro ano na faculdade.

Para Mariana Amorim, membro desde 2015, “o melhor é mesmo o frio na barriga antes do espetáculo, ou o silêncio da plateia quando estás em palco e percebes que toda a gente está ali para te ver. Para mim é quase mágico”.

“É uma forma de arte diferente. Tem a ver com a palavra, tem a ver com o controlo do nosso corpo e da nossa voz”, remata Marina Albuquerque, que considera que o teatro universitário continua a ser muito importante.

Texto originalmente publicado na NOVA Magazine, que optou por escrever na antiga grafia.
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